Os primeiros raios de sol iluminaram o rosto do caçador. Aos poucos os sinais de uma noite insone deixam-se aparecer, mostrando um rosto marcado pela inquietude de sua alma.
Ele não pode descansar. Não pode dormir. Não pode esquecer sua missão. Não pode sentir.
Não pode sentir. Não pode sentir. Sem sentimentos. Sem emoções. Somente a caçada interessa, capturar seu alvo e eliminar o mal.
Sentir. Quanto tempo faz que ele só pensa em caçar? É sua função, a única atividade que tem, o único meio de continuar vivendo.
Talvez o excesso de missões o tenham fragilizado e ele começou a lembrar da infância. Na verdade, faz alguns dias que imagens do passado teimam em visitar sua mente.
Ele balança a cabeça vigorosamente quando isso acontece, como a querer jogar para fora de sua mente as lembranças indesejáveis, afinal ele é um caçador e como tal não pode sentir. Só caçar.
O pequeno garotinho correndo pelo parque, atrás de uma bola colorida, com uma vontade férrea de recuperar o objeto de seu desejo, não importa se a bola corra para longe ou fique fora de seu campo de visão imediato. Ele quer a bola, ela é sua.
Para sua mãe, ele está só brincando. Para as crianças a sua volta, ele é só um excelente amigo que nunca deixa que sua bola se perca, para que possam jogar e jogar cada vez mais.
Mas algo naquele garotinho o faz obcecado mesmo nas brincadeiras. Nada dele se perde. Nada dele fica esquecido em algum canto. Ele conhece cada objeto que tem em sua casa, ainda mais em seu quarto. O garoto vigia os movimentos de todos, sabe o que cada um faz dentro do seu lar, no parque, na sala de aula.
A única coisa que o faz relaxa é o sorriso de sua mãe. Ela é feliz cuidando de seus dois filhos. Ele e seu irmão mais novo são como preciosidades para ela. Quando ele vai para a escola, sabe que sua mãe e irmão ficarão algumas horas juntos, que ela o alimentará, que o sorriso dos dois inundarão a casa e assim que ele retornar, poderá aproveitar toda essa atmosfera feliz, cuidando para que tudo fique em seu lugar correto.
Um balançar frenético afasta um pouco essas lembranças, para que ele volte a preocupar-se somente com a caça. Ele observava a rua estreita e em poucos minutos, notou que algo se modificava. No meio dos transeuntes normais, uma pessoa caminhava de maneira mais altiva no meio de pessoas mais simples.
O bairro em que estava era composto de operários. Nenhum deles teria essa altivez, nenhum deles usaria um sobretudo tão bem alinhado com a blusa embaixo dele, mostrando colarinhos arrumados com cuidado. Os operários só tinham que pensar em suas tarefas cotidianas, tinham movimentos mecânicos e olhares centrados em um foco único.
Esse homem que usava roupas surradas e caminhava mais devagar que a maioria, mantinha o rosto meio escondido e não olhava especificamente para lugar nenhum, como que perdido no meio de tanta funcionalidade.
Era o alvo, com certeza. O caçador aprumou-se e por instantes aquele homem o fez lembrar de seu professor.
Mais exatamente, o professor que lhe dera a notícia. Ou tentara. Ele balbuciou alguma coisa dizendo que ele ficaria com o garoto, que ele não iria para casa, porque uma tragédia acontecera, mas que ele ficaria bem.
Como ficar bem se ele não podia ir para casa? Ele não queria ficar com o professor, queria ir para sua casa, abraçar sua mãe, acariciar os cabelos de seu irmão mais novo e verificar se tudo estava no lugar certo.
Não, não é que ele não queria. Ele NÃO ia ficar com seu professor e em questão de segundos conseguiu driblar o mestre das letras, que nada entendia de segurar um garoto mais fortemente pela mão, deixando-o escapar por entre os dedos, por entre os corredores da escola, pelas ruas e pelo parque.
O garoto desvia-se de todos os obstáculos com destreza e em sua mente somente o foco em voltar para casa.
Lá chegando, esgueirou-se por tantos policias que estavam por lá, entrou pela janela lateral para deparar-se com seu mundo destruído, com tudo fora do lugar. Nem mesmo sua mãe estava sentada no seu sofá preferido, com seu sorriso amável, brincando com seu irmão.
Ela estava jogada no chão tingido de vermelho, com o seu irmão ainda preso em seus braços. Nenhum dos dois respirava.
Nada estava no lugar.
Ele subiu para seu quarto, com os olhos arregalados e lá encontrou tudo como deixara. Sentou na cama e suspirou aliviado. Um policial entrou atrás dele e ajoelhou-se na frente do menino com o olhar parado.
O policial estendeu o braço, pegando a foto da mãe do garoto, agora uma vítima da violência e trouxe para perto do garoto. A fúria nasceu em seus olhos e ele partiu para cima do policial, querendo tirar o retrato das mãos dele, para colocar no lugar. Nada podia ficar bagunçado, nada podia ficar fora do seu lugar certo.
Novo arrepio e mais uma vez as memórias são jogadas para dentro de si.
Ele era um caçador, ele eliminava o que estava errado no mundo.
E aquele homem supostamente culto, que protestava sempre contra o governo, que odiava as divisões da sociedade moderna no qual cada um representava uma função na sociedade, ele estava fora de seu lugar.
Lá, entre os operários, ele bagunçaria a vida.
Dane-se a liberdade, foi essa mesma liberdade que tirou dele sua mãe, seu irmão e sua vida feliz.
Ele crescera revoltado com a liberdade. Aguçou suas habilidades e desde cedo caçava os arruaceiros.
Logo foi notado e treinado para caçar quem fosse contra o sistema. Os sentimentos foram cada vez mais empurrados para dentro e nada de piedade havia em seus olhos.
De todos os caçadores, ele era o melhor. Seu alvo não escapava e se não quisesse retornar a sua rotina, simplesmente era eliminado.
O caçador aproximou-se mais. Essa caça deu-lhe trabalho dobrado, não era a primeira vez que encurralava aquele homem. Ele fugira duas vezes nos últimos três dias, mas agora seria o fim, o caçador estava cansado de vê-lo bagunçando a vida, sua caçada e provocando indiretamente as lembranças que ele socara dentro de si, para que os sentimentos não o atrapalhassem em suas missões.
O corpo exaurido do caçador permitia que a mente mergulhasse no passado. E para ele tudo era muito difícil, nunca mais sorrira, nunca mais amara ninguém. Para ele só importava a ordem, que tudo ficasse exatamente no mesmo lugar sempre.
Sua presa sentiu o perigo e acelerou os passos, para começar a correr em seguida.
Caçador e caça cortaram as ruas, bagunçando a rotina daquele bairro, o que provocou ainda mais a ira do predador.
A presa buscou o parque novamente, correndo agora destrambelhadamente. Sabia que suas forças estavam no final e praguejou por querer andar pelas ruas um pouco, se tivesse ficado no esconderijo ainda poderia lutar contra essa sociedade opressora onde ninguém pode mudar, tem que seguir a programação feita para cada cidadão.
Apaixonar-se, mudar de profissão, evoluir, criar, eram coisas banidas. A sociedade pregava agora que mudanças eram algo demoníaco que só traziam problemas.
E ele queria liberdade. Queria correr sem rumo, rir, amar, ter a sua vida sob seu cuidado e não ser um autômato.
O caçador percebeu que a presa cambaleava, acelerou e jogou-se por cima de seu alvo, derrubando-o no chão.
A presa deixou-se prender, exausto. Já estava velho, tudo que tinha de resistência já fora usado para escapar, agora ele se rendia.
O caçador levantou sua presa e o puxou em direção a cidade. A presa sabia que seria confinado na sua vidinha novamente e ele resistiu um pouco mais.
Caça e caçador ficaram frente a frente quando os pés do velho homem foram fincados no chão, a resistir.
De repente, o professor e o garoto se reconheceram. O professor que outrora não tinha controlado o garoto em sua fuga, agora pagava o preço. Ele não conseguira evitar que o garoto enfrentasse um mundo bagunçado pela morte da mãe e de seu irmãozinho. O professor não fez tudo que pode para evitar o mal invadindo a alma do garoto.
Agora, era vítima desse ódio pela desordem, não importa de que tipo. Ele ajudara a criar o monstro da ordem e do controle, simplesmente porque não teve forças para segurar um garoto e depois não teve interesse suficiente para ir atrás, consolá-lo, ajudar a enfrentar o drama.
E assim o passado encontrava-se com o presente, que morreu diante da sua própria resistência, de seu próprio cansaço diante da opressão e da falta de sentimentos.
O caçador não se sentiu bem ao matar o seu antigo professor. Parecia que matara o último elo com a vida feliz que um dia ele teve.
Ele cumpriu sua missão, acionou os tarefeiros da morte que recolheriam o corpo e deu as costas ao caso.
Mas sua mente não fez o mesmo. Se um dia mataram sua mãe e irmão, hoje ele matara o último elo que tinha com eles.
Isso não podia ser certo. Ele estava errado. O mundo de repente lhe pareceu errado. A ordem imposta pareceu errado.
O caçador se sentiu a caça. E percebeu que ele mesmo era um erro. Nada mais restava do que eliminar esse erro.
Era o fim de um caçador.
Ele não pode descansar. Não pode dormir. Não pode esquecer sua missão. Não pode sentir.
Não pode sentir. Não pode sentir. Sem sentimentos. Sem emoções. Somente a caçada interessa, capturar seu alvo e eliminar o mal.
Sentir. Quanto tempo faz que ele só pensa em caçar? É sua função, a única atividade que tem, o único meio de continuar vivendo.
Talvez o excesso de missões o tenham fragilizado e ele começou a lembrar da infância. Na verdade, faz alguns dias que imagens do passado teimam em visitar sua mente.
Ele balança a cabeça vigorosamente quando isso acontece, como a querer jogar para fora de sua mente as lembranças indesejáveis, afinal ele é um caçador e como tal não pode sentir. Só caçar.
O pequeno garotinho correndo pelo parque, atrás de uma bola colorida, com uma vontade férrea de recuperar o objeto de seu desejo, não importa se a bola corra para longe ou fique fora de seu campo de visão imediato. Ele quer a bola, ela é sua.
Para sua mãe, ele está só brincando. Para as crianças a sua volta, ele é só um excelente amigo que nunca deixa que sua bola se perca, para que possam jogar e jogar cada vez mais.
Mas algo naquele garotinho o faz obcecado mesmo nas brincadeiras. Nada dele se perde. Nada dele fica esquecido em algum canto. Ele conhece cada objeto que tem em sua casa, ainda mais em seu quarto. O garoto vigia os movimentos de todos, sabe o que cada um faz dentro do seu lar, no parque, na sala de aula.
A única coisa que o faz relaxa é o sorriso de sua mãe. Ela é feliz cuidando de seus dois filhos. Ele e seu irmão mais novo são como preciosidades para ela. Quando ele vai para a escola, sabe que sua mãe e irmão ficarão algumas horas juntos, que ela o alimentará, que o sorriso dos dois inundarão a casa e assim que ele retornar, poderá aproveitar toda essa atmosfera feliz, cuidando para que tudo fique em seu lugar correto.
Um balançar frenético afasta um pouco essas lembranças, para que ele volte a preocupar-se somente com a caça. Ele observava a rua estreita e em poucos minutos, notou que algo se modificava. No meio dos transeuntes normais, uma pessoa caminhava de maneira mais altiva no meio de pessoas mais simples.
O bairro em que estava era composto de operários. Nenhum deles teria essa altivez, nenhum deles usaria um sobretudo tão bem alinhado com a blusa embaixo dele, mostrando colarinhos arrumados com cuidado. Os operários só tinham que pensar em suas tarefas cotidianas, tinham movimentos mecânicos e olhares centrados em um foco único.
Esse homem que usava roupas surradas e caminhava mais devagar que a maioria, mantinha o rosto meio escondido e não olhava especificamente para lugar nenhum, como que perdido no meio de tanta funcionalidade.
Era o alvo, com certeza. O caçador aprumou-se e por instantes aquele homem o fez lembrar de seu professor.
Mais exatamente, o professor que lhe dera a notícia. Ou tentara. Ele balbuciou alguma coisa dizendo que ele ficaria com o garoto, que ele não iria para casa, porque uma tragédia acontecera, mas que ele ficaria bem.
Como ficar bem se ele não podia ir para casa? Ele não queria ficar com o professor, queria ir para sua casa, abraçar sua mãe, acariciar os cabelos de seu irmão mais novo e verificar se tudo estava no lugar certo.
Não, não é que ele não queria. Ele NÃO ia ficar com seu professor e em questão de segundos conseguiu driblar o mestre das letras, que nada entendia de segurar um garoto mais fortemente pela mão, deixando-o escapar por entre os dedos, por entre os corredores da escola, pelas ruas e pelo parque.
O garoto desvia-se de todos os obstáculos com destreza e em sua mente somente o foco em voltar para casa.
Lá chegando, esgueirou-se por tantos policias que estavam por lá, entrou pela janela lateral para deparar-se com seu mundo destruído, com tudo fora do lugar. Nem mesmo sua mãe estava sentada no seu sofá preferido, com seu sorriso amável, brincando com seu irmão.
Ela estava jogada no chão tingido de vermelho, com o seu irmão ainda preso em seus braços. Nenhum dos dois respirava.
Nada estava no lugar.
Ele subiu para seu quarto, com os olhos arregalados e lá encontrou tudo como deixara. Sentou na cama e suspirou aliviado. Um policial entrou atrás dele e ajoelhou-se na frente do menino com o olhar parado.
O policial estendeu o braço, pegando a foto da mãe do garoto, agora uma vítima da violência e trouxe para perto do garoto. A fúria nasceu em seus olhos e ele partiu para cima do policial, querendo tirar o retrato das mãos dele, para colocar no lugar. Nada podia ficar bagunçado, nada podia ficar fora do seu lugar certo.
Novo arrepio e mais uma vez as memórias são jogadas para dentro de si.
Ele era um caçador, ele eliminava o que estava errado no mundo.
E aquele homem supostamente culto, que protestava sempre contra o governo, que odiava as divisões da sociedade moderna no qual cada um representava uma função na sociedade, ele estava fora de seu lugar.
Lá, entre os operários, ele bagunçaria a vida.
Dane-se a liberdade, foi essa mesma liberdade que tirou dele sua mãe, seu irmão e sua vida feliz.
Ele crescera revoltado com a liberdade. Aguçou suas habilidades e desde cedo caçava os arruaceiros.
Logo foi notado e treinado para caçar quem fosse contra o sistema. Os sentimentos foram cada vez mais empurrados para dentro e nada de piedade havia em seus olhos.
De todos os caçadores, ele era o melhor. Seu alvo não escapava e se não quisesse retornar a sua rotina, simplesmente era eliminado.
O caçador aproximou-se mais. Essa caça deu-lhe trabalho dobrado, não era a primeira vez que encurralava aquele homem. Ele fugira duas vezes nos últimos três dias, mas agora seria o fim, o caçador estava cansado de vê-lo bagunçando a vida, sua caçada e provocando indiretamente as lembranças que ele socara dentro de si, para que os sentimentos não o atrapalhassem em suas missões.
O corpo exaurido do caçador permitia que a mente mergulhasse no passado. E para ele tudo era muito difícil, nunca mais sorrira, nunca mais amara ninguém. Para ele só importava a ordem, que tudo ficasse exatamente no mesmo lugar sempre.
Sua presa sentiu o perigo e acelerou os passos, para começar a correr em seguida.
Caçador e caça cortaram as ruas, bagunçando a rotina daquele bairro, o que provocou ainda mais a ira do predador.
A presa buscou o parque novamente, correndo agora destrambelhadamente. Sabia que suas forças estavam no final e praguejou por querer andar pelas ruas um pouco, se tivesse ficado no esconderijo ainda poderia lutar contra essa sociedade opressora onde ninguém pode mudar, tem que seguir a programação feita para cada cidadão.
Apaixonar-se, mudar de profissão, evoluir, criar, eram coisas banidas. A sociedade pregava agora que mudanças eram algo demoníaco que só traziam problemas.
E ele queria liberdade. Queria correr sem rumo, rir, amar, ter a sua vida sob seu cuidado e não ser um autômato.
O caçador percebeu que a presa cambaleava, acelerou e jogou-se por cima de seu alvo, derrubando-o no chão.
A presa deixou-se prender, exausto. Já estava velho, tudo que tinha de resistência já fora usado para escapar, agora ele se rendia.
O caçador levantou sua presa e o puxou em direção a cidade. A presa sabia que seria confinado na sua vidinha novamente e ele resistiu um pouco mais.
Caça e caçador ficaram frente a frente quando os pés do velho homem foram fincados no chão, a resistir.
De repente, o professor e o garoto se reconheceram. O professor que outrora não tinha controlado o garoto em sua fuga, agora pagava o preço. Ele não conseguira evitar que o garoto enfrentasse um mundo bagunçado pela morte da mãe e de seu irmãozinho. O professor não fez tudo que pode para evitar o mal invadindo a alma do garoto.
Agora, era vítima desse ódio pela desordem, não importa de que tipo. Ele ajudara a criar o monstro da ordem e do controle, simplesmente porque não teve forças para segurar um garoto e depois não teve interesse suficiente para ir atrás, consolá-lo, ajudar a enfrentar o drama.
E assim o passado encontrava-se com o presente, que morreu diante da sua própria resistência, de seu próprio cansaço diante da opressão e da falta de sentimentos.
O caçador não se sentiu bem ao matar o seu antigo professor. Parecia que matara o último elo com a vida feliz que um dia ele teve.
Ele cumpriu sua missão, acionou os tarefeiros da morte que recolheriam o corpo e deu as costas ao caso.
Mas sua mente não fez o mesmo. Se um dia mataram sua mãe e irmão, hoje ele matara o último elo que tinha com eles.
Isso não podia ser certo. Ele estava errado. O mundo de repente lhe pareceu errado. A ordem imposta pareceu errado.
O caçador se sentiu a caça. E percebeu que ele mesmo era um erro. Nada mais restava do que eliminar esse erro.
Era o fim de um caçador.
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