Fevereiro 22, 2010

VALORIZAR


Nas minhas idas e vindas utilizando o transporte público trazem para minha coletânea de sabedoria popular um acréscimo considerável.

A simplicidade das pessoas traduz-se em “ cliques” mentais, sociais e filosóficos que são de uma pureza surpreendente.

Lá estava eu voltando do trabalho para casa quando entra no ônibus uma senhora cega, que já nos primeiros minutos mostra que é conhece o pessoal daquela linha de transporte e tem um bom humor invejável.

O caminho segue com ela perguntando sobre motoristas, cobradores e afins. Sorri muito, conversa e atualiza-se das novidades, contando as suas também.

No meio do caminho sobe um rapaz vendendo canetas. A famosa oferta de duas por 1 real, que varia por todos os dias: uns dias são balas, outro é chocolate. Hoje a oferta são canetas.

Ele faz o seu famoso discurso de que só está incomodando porque não tem outra fonte de renda, alardeia as qualidades de seu produto e relembra sempre que é só uma moedinha.

Como eu precisava de canetas, me prontifiquei a comprar e com um discreto sinal informei minha decisão.

A senhora que citei no começo chama o rapaz em alto e bom som dizendo que também quer comprar o item oferecido.

E aí começa um diálogo singular:

- Obrigado dona pela ajuda.

E a senhora, tateando a bolsa a procura de moedinhas diz:

- Eu não vou comprar para ajudar não, estou pagando pelo seu trabalho. Eu tenho um amigo que faz aniversário hoje e vou presentear com essas canetas. Eu também vendia coisinhas para as pessoas e nunca quis que comprasse algo para me ajudar, queria que valorizassem meu trabalho, que reconhecessem que eu estava trabalhando, não pedindo esmola.

Nessa hora, todos do ônibus prestavam atenção a conversa e depois que achou suas moedinhas, a cobradora ajudou na contagem das mesmas e na compra das canetas.

E a senhora continuou:

- É engraçado que se alguém pede esmola, muita gente bota a mão no bolso para dar. Se alguém chega trabalhando, vendendo alguma coisa, não dão atenção e parece que a pessoa ta cometendo um crime. Eu não ajudo, eu respeito você e seu trabalho. Essas canetas eu vou dar pro meu amiguinho.

O rapaz agradeceu e depois mais dois ou três compraram as canetas.

A senhora pegou as canetas que a cobradora lhe colocou nas mãos e guardou em um lugar estratégico de sua grande bolsa.

- Meu amigo vai gostar. Ele sempre me dá parabéns e um doce no meu aniversário. Você acredita que minhas irmãs sempre se cumprimentam nos aniversários, mas nunca me dão parabéns no meu? Meus amiguinhos não se esquecem de mim e hoje eu vou dar um presente para um amigo, isso não é bom?

Confesso que nessa hora já estava enxugando lágrimas furtivas nos meus olhos e o mesmo faço agora ao relatar esse “causo”.

Quanta sabedoria em uma simples viagem de ônibus.

Aquela senhora falou contra a discriminação, lembrou que cada um deve ser valorizado pelo que faz, falou da hipocrisia das pessoas que vêem ainda o dar esmola como compra do seu pedacinho no céu, escancarou o preconceito mesmo no âmbito familiar, alardeou a amizade como fonte de um carinho imenso e tudo isso sorrindo muito, sem se incomodar com a escuridão física em que vive, afinal a alma dela é tão iluminada que clareia sua vida, assim como de todos que convivem com ela e até de pessoas como eu, que cruzam rapidamente o seu caminho.

E tudo isso sem discurso feito, sem diploma embaixo do braço ou demagogias.
Ela me fez pensar e sorrir.

Ela pode ser cega, mas tem uma visão da vida muito maior do que quem enxerga perfeitamente com os olhos físicos.

1 comentários:

  1. Êita nóis, Lisa... Só você pra trazer essa lição pra gente.

    Muita gente vê isso, poucas percebem a lição.

    Obrigado por dividí-la.
    Bjo.

    Bob

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