A pequena gota de água estava animadíssima diante da possibilidade de seu primeiro vôo.
A nuvem de treinamento mantinha todas as gotinhas ansiosas em uma prontidão emocionante, falando da importância de dar tudo de si, brilhar o mais que possa e fazer um vôo marcante.
Entre as gotinhas corriam histórias sobre lagos de um azul inacreditável, que pareciam ser pedaços do céu na terra. Muitas das gotinhas ansiavam pelo mar, pensando na alegria que seria nadar em suas ondas.
Cascatas, cachoeiras e rios também eram alvos de desejo, provocando diversos frenesis entre as irmãzinhas.
Ainda havia aqueles que queriam beijar a terra, levando em si a força de uma nova vida. Ou encontrar as pétalas de um flor, a copa das árvores, ao animais, cumprindo também sua missão de levar um pouco do céu para as criaturas vivas.
A nuvem de treinamento mantinha todas as gotinhas ansiosas em uma prontidão emocionante, falando da importância de dar tudo de si, brilhar o mais que possa e fazer um vôo marcante.
Entre as gotinhas corriam histórias sobre lagos de um azul inacreditável, que pareciam ser pedaços do céu na terra. Muitas das gotinhas ansiavam pelo mar, pensando na alegria que seria nadar em suas ondas.
Cascatas, cachoeiras e rios também eram alvos de desejo, provocando diversos frenesis entre as irmãzinhas.
Ainda havia aqueles que queriam beijar a terra, levando em si a força de uma nova vida. Ou encontrar as pétalas de um flor, a copa das árvores, ao animais, cumprindo também sua missão de levar um pouco do céu para as criaturas vivas.
Elas só não conversavam sobre o concreto, o fogo e o ser humano, os quais temiam. O máximo que faziam era orar antes de dormir pelas gotinhas que encontraram tais destinos.
O concreto era a barreira que as impedia de encontrar a felicidade, o fogo era o antagonista a todos os seus sonhos e o ser humano personificava a dúvida sobre o que aconteceria com elas ao defrontar essa força adversa da Natureza, que simbolizava a incógnita para todas as gotinhas.
O ser humano podia ajudar ou destruir. E nunca se sabia o que ele faria. De todos, era o único que podia escolher. As gotinhas temiam colocar suas vidas em mãos que podem simplesmente destruir rios, lagos e mares, erguer o concreto além do chão, utilizar o fogo como arma e ainda ignorar a beleza da Natureza em ação.
Aquela pequena gota passou a noite em claro, sentindo que o momento certo estava chegando. E logo o amanhecer trouxe promessas de um ótimo dia para voar.
Ela observava o mundo abaixo da nuvem aonde estava sentindo a pressão crescer. O Sol saudou a todas e reinou tão grandioso, reunindo mais e mais gotinhas. Em breve eram milhares... depois milhões de gotinhas na espera.
E foi então que a sirene tocou. As gotinhas preparam-se e com uma ordem forte da nuvem, jogaram-se ao ar, num vôo inesquecível.
Calor, frio, medo, paixão, coragem, ousadia, sonhos... tudo passou pela gotinha e ela aproveitou ao máximo aqueles momentos.
Lembrando de todas as aulas que a prepararam para aquele dia, a gotinha começou a desacelerar quando se aproximava do fim de sua viagem, preparando-se para deslizar para seu novo (e temporário) lar.
Ela viu o mar... as florestas... as temidas cidades... sentiu o vento acompanhando sua descida e com o foco melhorando a cada segundo, percebeu que se encaminhava para um pequeno jardim. Esforçou-se para mirar em algumas flores, nas plantas que pareciam precisar muito dela e a chamavam.
Mas ela hesitou entre um e outro destino, assustando-se ao ver um ser humano sentado de frente para o jardim mal cuidado. O medo a dominou e sem enxergar direito, acabou aterrissando em uma pequena poça, formada a poucos metros de várias plantinhas sedentas.
A superfície áspera de um pneu velho acolheu a gotinha, que escorregou e juntou-se a outras, que há algum tempo se perderam dentro daquela criação humana. As outras gotinhas dormiam um sono pesado dentro do pneu velho e pouco se agitaram com aquela gotinha.
Outras ainda também pousaram no mesmo local, meio que assustadas. Por ser de difícil acesso, poucas atingiram o pneu, mas foram o suficiente para jogar para fora algumas gotinhas que dormiam lá e pareciam muito doentes.
A chuva parou logo depois e a gotinha olhou em volta. Suas irmãs que desceram com ela estavam apavoradas e choramingavam. Algumas ainda na beirada, lutavam para não cair dentro do pneu velho, buscando suas ultimas forças para seguir um destino melhor.
Ela caiu muito no fundo do pneu e a claridade parecia distante. Machucada, buscou conhecer as gotinhas que dormiam, mas todas tinham uma aparência estranha. Quase todas dormiam e as poucas acordadas pareciam olhar para o nada, sem realmente perceber nem a chegada de novas irmãs.
As gotinhas recém chegadas agitaram-se por um tempo ainda, tentando conhecer o lugar, acordar as outras que dormiam. Falavam em planos para sair de lá, lamentando por não estarem do lado de fora.
O cheiro da chuva misturava com o ar pesado de dentro do pneu. Algumas horas depois, ainda agitadas e muito cansadas tanto do vôo como das tentativas para sair do pneu, as gotinhas começaram a lembrar de que queriam conhecer o mar, os lagos, os rios, as plantas, a vida lá fora.
Quase de noite o silêncio do medo congelou as gotinhas, ao perceberem que o ser humano tinha se levantado e estava olhando para dentro do pneu. O olhar dele era de desprezo e preguiça. Ele deu um leve empurrão no pneu com a bengala, mas não se esforçou para libertar as gotinhas. Por fim, virou as costas e foi viver sua vidinha rotineira.
A gotinha percebeu que as outras que já estavam lá antes dela ficavam embaixo de uma espécie de cobertor esverdeado, que as mantinha no mesmo lugar, ignorando tudo a sua volta.
A noite esfriou os ânimos e as mais cansadas foram para junto das antigas, buscando a proximidade daquele cobertor, deixando-se levar pelo sono.
O dia encontrou algumas ainda tentando entender aonde estavam e como sair de lá. O Sol aqueceu o planeta e as mais agitadas, que inflamavam as irmãs com discursos de ânimo e luta, esvaneceram-se através dos raios solares, pegando carona para voltarem ao céu.
A gotinha queria ir junto, mas não estava muito animada. Mas também não estava tão triste ao ponto de dormir. Ela olhava com curiosidade para o lado de fora e alimentava uma vontade enorme de conhecer o que estava além do pneu.
O dia se passou, mais gotinhas foram dormir e apenas algumas resistiam. Havia uma pequena fileira que tentava empurrar-se para fora, por ter caído mais na beirada do pneu e a cada brisa esforçava-se para conseguir o objetivo.
No dia seguinte, um cachorro farejou o pneu e com a pata, virou um pouco para o lado. As gotinhas que estavam lutando para sair beneficiaram-se desse incentivo e caíram para o lado de fora, indo agasalhar-se na grama a sua volta.
A gotinha começou a entristecer. Estava muito longe da beira do pneu e as outras irmãs que estavam a sua volta começavam a desistir.
Algumas ainda insistiam, lembrando das histórias sobre os rios, lago, sobre o mar. Perguntavam-se como seria o carinho de uma pétala de rosa. Como seria fornecer a vida.
Não havia mais tanto entusiasmo, mas ainda persistiam, mas por pouco tempo. Uma a uma iam deitando-se nas histórias que conheciam, falando de experiências boas de outras gotinhas, imaginando como seria encontrar essa felicidade.
Algumas acabaram tornando-se muito rabugentas, começando a duvidar dessas histórias e propagando que tudo não era utopia, que não havia nada de bom em ser uma gota d’água, que eram insignificantes e que o destino era um grande vazio, um nada.
Outras choramingavam no canto, isoladas.
Mais algumas reclamavam de infindável cansaço, que se pudessem descansar só um pouquinho, conseguiriam voltar a lutar. Mas que por hora estavam tão cansadas, mas tão cansadas, que nada podiam fazer.
E uma a uma foram silenciando-se. Até que só sobrava a gotinha acordada, lutando contra sua vontade de também deitar e esquecer-se de tudo.
A vida da gotinha ia perdendo seus sonhos, alegrias e esperanças. Ela ia deixando estagnar-se, dormir na vida, desistir.
Até que ela escorregou para perto das outras que dormiam, mas não conseguiu dormir. Algo dentro dela ainda ansiava por sonhos e realizações.
Ela abriu seus olhos marejados e viu ao longe, do lado de fora do pneu, uma bela flor amarela.
O Sol parecia tê-la beijado, deixando resplandecer seu calor naquela flor. Ela iluminava-se com a vida, mesmo tendo nascido no meio de ervas daninhas, restos de comida e lixo.
A vida estava naquela flor e a gotinha quis essa vida.
Ela levantou-se e esbarrando nas irmãs que dormiam, foi caindo ao lado da poça de água esverdeada. Rodeou, deslizando, o grande lado de desistência e estagnação que fora formado pelas gotinhas no seu destino triste.
Ela sentiu aderir-se no pneu, mas o Sol a convidava para continuar na luta.
A Natureza sentiu essa luta e agitou a todos em sua volta. O velho que morava na casa a qual pertencia o jardim sentiu a brisa e do nada teve a vontade de andar pelo jardim. Acompanhado do seu também velho cão, esticou as pernas e passeou pelo jardim descuidado. Mesmo alquebrado, abaixou-se e recolheu aqui e ali algumas garrafas e latas vazias.
Achou no meio delas uma velha bola que fez o cão despertar de sua letargia idosa, animado pelo antigo brinquedo.
O ser humano jogou a bola, sorrindo pela alegria do cão que correu atrás dela. O vento envolveu essa bola e guiado pela Natureza, encaminhou-a até o pneu, caindo lá dentro e acordando as gotinhas esverdeadas.
O cão farejou a bola e animado a resgatou, empurrando o pneu novamente, permitindo que a gotinha que estava em sua beirada tivesse a segunda oportunidade de voar.
E novamente com a ajuda do vento, guiado pelas rédeas da vida, a pequena gotinha cruzou o ar, esparramando-se nas pétalas daquela flor amarela.
O cão correu para seu dono latindo feliz, o vento rodopiou as folhas sorrindo e a gotinha deslizou pelas pétalas aveludadas, e total felicidade.
Ela seguiu pelo caule, beijou cada parte da flor e chegando no solo, usou seu milagre pessoal, passando a sua vida para dentro da flor. A gotinha agora era parte da flor e mais uma vez o milagre da vida acontecia.
Empolgado pelos latidos do cão e sem nem saber exatamente porque, o velhinho foi até o pneu, resgatou a bola e ao ver aquela água parada, virou o pneu e ligou a mangueira, espalhando a estagnação para longe.
As gotinhas sentiram-se revividas pela água em jato, despertando também para a vida, conhecendo a terra e transmutando-se em vida.
Somente aquelas gotinhas que desacreditaram da vida continuaram dentro do pneu, presas em sua própria tristeza, consumindo-se nas toxinas da desistência.
O velhinho lembrou-se de sua amada, colheu a flor amarela e entregou para sua esposa, que tentava ir além de suas juntas endurecidas, mantendo pelo menos a casinha onde moravam com um aspecto de vida e alegria. Ela aceitou a flor e juntos resolveram dar uma volta na vizinhança, indo até o rio lá perto.
Ao chegar no lago, inspirada pela Natureza, a senhora jogou a flor amarela na água, em uma oferenda a vida e enquanto o casal observava a água levar a pequena flor, a gotinha desprendeu-se da flor e nadou entre suas irmãs do rio.
O Sol aqueceu as almas, a terra e a água, permitindo que a gotinha pegasse carona em seus raios, voltando ao céu.
Lá chegando, foi acolhida com festa e ela teve a certeza que ganhara uma segunda chance.
Dessa vez, iria aproveitar os ensinamentos e os seus dons, iria voar novamente, mas com a sabedoria de quem não desistiu de sonhar!
Moral da história: nunca deixe sua vida estagnar-se, mantenha-se vivo, sonhe muito e ganhe suas chances para buscar sempre sua felicidade... aonde quer que ela esteja, nem que seja numa bela flor amarela!
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