
- Moça, você sabe aonde pego o ônibus para a minha casa?
O garotinho puxava a ponta do meu casaco insistentemente. Eu devo ter demorado alguns minutos para perceber a presença dele, tão absorta estava com os meus problemas.
Na verdade, ele me assustou com a pergunta, tinha me esquecido que estava no ponto de ônibus, lutando com pastas e papéis, enquanto relia pela centésima vez o relatório que eu achava ter terminado.
Enquanto olhava para aqueles dois olhos enormes que me encaravam com curiosidade, lembrei de outros olhos que me encararam a quase uma hora atrás, mas sem nenhuma expressão tão branda como a do menino. Na verdade, era o contrário, os olhos do meu chefe pareciam querer sair de órbita pela impaciência que irradiavam.
- Isso aqui é o relatório final? Tem certeza? Parece coisa de estagiário!! Se fosse para fazer um relatório tão amador teria dado a tarefa para a faxineira da firma! O que você quer, que eu tenha outro enfarte?
Nem sei como tive o reflexo de pegar a pasta no ar. Seria pior se ela espatifasse no chão e eu tivesse que catar os papéis que se espalhariam.
Mas isso não evitou que eu ruborizasse como um tomate. Mesmo recebendo tapinhas nas costas de todos os outros funcionários que já passaram por isso com o chefe, nada diminuiu minha vergonha.
E olha que eu imaginava que receberia muitos elogios pelo relatório bem feito, no qual eu desperdicei horas e horas de trabalho. Sim, desperdicei, já que foi tão ridicularizado.
- Não ligue, ele sempre faz isso quando briga com a esposa. Mude a capa, troque algumas coisas de lugar e reapresente na segunda-feira. Pode ter certeza, ele vai amar e ainda lhe perguntar porque não fez desse ejitod esde o começo.
Agradeci com um sorriso sem graça ao meu colega de trabalho, muito mais experiente nesses ataques histéricos do chefe. Mas eu me conhecia, ia passar o fim de semana inteiro refazendo o trabalho, tentando encontrar o que estava errado. Lá se foi meu descanso tão desejado!
- Moça, meu ônibus. Qual é?
Voltei ao presente, ma ainda sem resposta para aquele menino. Olhei para o ponto, para minhas pastas e papéis e tentei sair do meu momento de piedade pessoal.
-Mas, você está sozinho? E onde mora? Cadê sua mãe?
- Sim, estou só, moro na casa com a porta grandona, minha mãe se perdeu e meu pai nunca está no mesmo lugar.
- O que? Não entendi nada.
- Qual ônibus eu pego para ir para casa?
Suspirando por acreditar que não ia ser fácil responder ao garoto, apontei para o banco perto do ponto e fui com ele até lá, precisava sentar e pensar um pouco.
- Vamos lá, como chegou aqui? Você não é muito pequeno para estar sozinho?
- Eu cheguei aqui de carona. Meu tio veio fazer uma entrega e acabei me afastando dele. Agora preciso voltar para casa e ouvi umas pessoas no ponto dizendo que lá passa o ônibus para a casa deles. Então deve passar para a minha também.
Ai meus sais, isso não vai ser fácil Além de lidar com um relatório recusado, um chefe nervoso e o cansaço, ainda vou ter que ajudar esse garotinho a encontrar sua família. Não seria mais simples entrega-lo a um policial? Claro que seria, mas não para mim, a dona responsabilidade, que nunca faltava ao serviço, que recicla o lixo, doa agasalhos com pouco uso e ajuda velhinhas a atravessar a rua. Eu TINHA que ajudar esse garotinho a encontrar seu lar.
- Você não sabe me dizer o nome da rua em que você mora?
- Claro, moro na rua da liberdade.
Eu suspirei alto. Talvez não fosse assim tão difícil, afinal o garoto estava bem vestido, com roupas limpas e coloridas, tinha boa aparência e conversava com facilidade.
- Ótimo. Rua da Liberdade. Não conheço, mas não deve ser difícil descobrir aonde fica. Por acaso sabe o bairro?
- Bairro? Onde moro não tem isso não, é uma cidade.
Remexi na minha bolsa a procura do celular, quem sabe alguém do escritório ainda estava por lá e poderia acessar um site que informasse a localização dessa rua.
- Claro, claro. Todos moramos em uma cidade...
- A Cidade da Luz. Nunca vi você por lá. Você não mora lá?
- Cidade da... Luz? Não, não conheço. Não vá me disser que você não é da capital?
O desespero voltou, com força total. Não me fale que você não é da capital, menininho... isso não!
- Capital? Não sei. Só sei que moro na rua liberdade, que é pertinho da avenida das emoções. Minha mãe gosta muito de passear por essa avenida.
Sorri rapidamente para o menino e chacoalhei o celular. Droga, ninguém atende. E agora? Vou até a delegacia ou tento descobrir sozinha?
- Moça, olha lá, um ônibus. Era que serve?
Olhei para o ônibus que se aproximava e me admirei ao ver no letreiro: “Cidade Luz”. E na placa logo abaixo: Via Rua Liberdade.
- Bingo!
- Vamos jogar?
- Não, vamos pegar o ônibus.
Levantei de um pulo e fui correndo para o ponto, atrapalhada com minhas coisas, mas mesmo assim puxando o menino pela mão. Dei sinal e o ônibus parou para que entrássemos. Quando dei por mim, estava dentro de um ônibus indo para algum lugar que não conhecia, com um garoto desconhecido e um motorista sorrindo de uma maneira tão entusiasmada que acabei por sorrir também.
- Olá. Pode se sentar.
Remexi a bolsa procurando o dinheiro para a passagem e estendi para o motirsta, já que não vi nenhum cobrador. Na verdade, não tinha ninguém no ônibus a não ser eu, o menino e o motorista.
- Não, não cobramos passagem. Ir para a Luz é gratuito, basta querer.
Por um instante achei que o motorista era maluco, mas como ele não pegou o dinheiro e reiniciou a viagem, achei que era mais algum serviço que desconhecia. Eu quase não fazia outra coisa que não fosse trabalhar, não saia muito, não passeava. Mas que era estranho, isso era.
- Senta aqui moça.
Claro que o menino tinha se aboletado em um banco, ficando pertinho da janela. Sorri ao lembrar o quanto eu gostava de viajar na janela, era um das poucas distrações que meu ritmo corrido de vida me permitia.
- Então, qual é o seu nome garotinho?
- Bom Humor.
- O que? Quem tem bom humor.
O menino deu uma boa risada, acompanhado do motorista que parece que prestava muita atenção aos seus dois únicos passageiros.
- Meu nome é Bom Humor.
OK, agora isso estava ficando estranho.
- Sem brincadeiras, eu estou lhe ajudando a voltar para casa. Como é seu nome?
O menino empertigou-se no banco e sem deixar de lado o sorriso, quase cantarolou a resposta:
- Meu nome é Bom Humor. Minha mãe chama-se Esperança e meu pai é Destino.
Irritada com a resposta, resmunguei:
- E seu tio é quem? O Louco?
Ele deu uma bela gargalhada, mas não se perturbou com a minha resposta brusca.
- Não, meu tio é o Tempo com ele entregar alguns minutos extras que pediram desesperadamente. De vez em quando ele consegue essas entregas extras para quem precisa muito e valoriza meu tio.
Pronto, o garoto bonitinho e perdido era também piradinho. Ou estava tirando sarro da minha cara.
- OK. Vai me dizer a verdade ou vou ter que parar em um posto policial?
- Eu digo: a Verdade é minha Vovó.
- Pode parar, eu...
- Chegamos! – gritou o motorista, parando o ônibus e estacionando em frente a uma casa enorme.
Espantada, atordoada e o que mais possa definir meu estado naquele momento, olhei pela janela do ônibus e vi a placa com o nome da rua: Rua Liberdade.
- Como você sabia????
O motorista afagou os cabelos do menino que já se adiantara para a saída do ônibus e sorriu demoradamente.
- Eu trabalho para o pai do menino, sei aonde ele mora.
- E você é quem??
O motorista tirou sua credencial e a exibiu com orgulho, apontando seu nome: Caminho Certo.
Balancei a cabeça. Isso não estava acontecendo comigo. Eu não era fadada a ter experiências desse tipo, era uma pessoa comum, normal.
- Por favor, eu quero ir embora daqui. Posso sair?
O menino que já havia descido voltou ao ouvir meu pedido, com aquele sorriso que parecia maior que seu próprio rosto.
- Não, primeiro venha tomar um refresco com minha mãe, acabei de encontra-la para você.
E puxando minha mão para que eu descesse do ônibus, levou-me em direção a sua casa, não parando nem quando tropecei nos degraus.
- Mãe, mãe, venha conhecer minha nova amiga.
Logo uma senhora de meia idade, com uma aparência de ter saído daqueles comerciais que retratam famílias extremamente felizes, veio ao nosso encontro.
- Olá mocinha, obrigado por trazer o Bom Humor de volta para casa. Ele faz muita falta.
Eu apertei a mão estendida e algo naquela senhora me fez perder o medo. De repente, não me sentia mais confusa.
Dona Esperança acenou para o Caminho Certo e convidou-me a ir para a sala.
- Vamos, vou preparar um chá. Lá dentro você encontrará o Destino.
- Como????
- Destino, meu marido.
O menino largou-me, saltitando alegre em direção ao interior da casa.
- Oba, papai está em casa!!!
Mal me recuperei e a porta da casa abriu-se, deixando entrar um rapaz bem novo de aparência, mas com um andar lento de alguém de muita idade.
- Meu querido, você conseguiu chegar cedo.
- Ora, querida irmã, eu quase nunca me atraso.
Da sala o garotinho veio de mãos dadas com um senhor bem vestido, com aparência de alguém acabara de chegar de viagem.
- Ora, ora, se não é que o Tio Tempo veio para o jantar.
Ele sorriu e pegou o menino no colo.
- Obrigado BH, você me ajudou na entrega.
- Que entrega titio?
- Eu tinha que entregar algo a essa mocinha aqui, mas quando cheguei no trabalho dela, ela já havia saído.
Mesmo me sentindo em casa, ainda me espantei com esse comentário.
- Eu? Mas... mas...
- Sim, você. Tão apressada em fazer tudo de uma vez que saiu sem o Tempo, pelo visto.
O Senhor Destino balançou a cabeça como a me repreender pelo meu constante corre corre pelos dias.
-Exato, E eu só queria entregar este mimo para ela.
O Tio Tempo estendeu um pequeno pacote para mim e eu o aceitei sem pensar.
- Abra mais tarde. É uma ordem!
Sorri sabendo que mesmo duvidando se eu estava em sã consciência, com cesteza obedeceria ao Tempo.
- Então, já que trouxe o Bom Hunor de volta ao Lar, vai poder ficar para jantar. Esperança faz refeições deliciosas, que revigoram a alma. Vamos, vamos, venha por aqui.
E o Senhor Destino apontou-me a direção. Bom Humor, faminto, puxou-me pelo braço e com o Tempo incentivando-me, acabei sentada em uma ampla mesa, aguardando a Dona Esperança.
O Tempo foi ajuda-la a preparar o necessário e logo estávamos diante de uma deliciosa refeição, naquela enorme casa em que tão bem me receberam, na Rua Liberdade.
Quando dei por mim a noite já adiantara-se e era hora de partir. Despedi-me de todos e por último ficou o garotinho.
- Quando quiser, venha nos visitar. Você já sabe o caminho.
- E se esquecer, é só esperar que Caminho Certo sempre irá lhe encontrar.
- E se o destino assim diz, pode acreditar. Meu marido nunca se engana. E já sabe que agora somos amigas, conte comigo sempre.
Eu só conseguia sorrir ao abraçar Dona esperança. Sentia-me muito feliz naquele lugar.
- Vamos, vou lhe acompanhar.
E na companhia do Tempo, voltei para minha casa. Já havia esquecido o trabalho, a bronca do chefe, o desespero, a ansiedade.
A conversa agradável, os sorrisos, o luar, logo proporcionaram a que eu e o Tempo começássemos a caminhar de mãos dadas.
Ao parar na porta do meu lar, deixei que o tempo me desse um rápido beijo.
- Quem diria, estou flertando com o Tempo.
- E você achou isso ruim?
Eu sorri e balancei a cabeça.
- Eu sempre estarei por aqui. Bom Humor, Esperança e Destino fazem parte de sua vida agora. Quem sabe você aprenda a me amar e a vida seja melhor do que pensava que seria.
Ele se despediu de mim, mas eu sabia que sempre estaria por perto.
Entrei em casa, joguei minhas coisas na mesa e fui para o sofá, suspirando. Adormeci com um sorriso nos lábios, apaixonada pelo que teria daqui para frente.
- Ei Tempo, quer uma carona?
- Quero sim Caminho Certo. Tenho outras entregas para fazer.
- Você não fica triste ao saber que ela não se lembrará de você amanhã, ao acordar?
- Não, meu amigo, porque ela sempre amará o Tempo que tiver e essa é a melhor parte da vida, quando se sabe aproveitar o que se têm.
E assim o Tempo seguiu seu caminho, para fazer outras entregas.
Moral da História: Se encontrar o Bom Humor por aí, leve-o para casa. Com certeza encontrará a Esperança e o Destino irá sorrir para você. E não esqueça, conte com o Tempo, ele sempre ajuda-nos a viver melhor, se soubermos dar valor aos minutos que temos de presente.
Ah, na dúvida, espere o Caminho Certo. Ele sempre sabe aonde você deve ir.
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