
- Senhor, eu vou repetir mais uma vez: não posso lhe dar essa informação ou aceitar seu pedido.
A jovem atendente até que tentou colocar em sua voz um tom sereno e piscou os olhos várias vezes, como a querer encantar aquele homem de meia idade, desconfortável dentro de um terno que nem parecia seu, demonstrando incompreensão no olhos verdes, estalados e impressionados com a resposta recebida.
- Mas... Mas... Meu pedido é simples, nada além daquilo que muitos com certeza desejam.
O senhor demonstrava sua impaciência alternando seu peso de uma perna na outra, querendo mesmo sair correndo daquele prédio frio e sem nenhum resquício de alma. Em suas mãos os intermináveis formulários azuis, verdes e amarelos, tão repletos de carimbo que ele até duvidava se o seu conteúdo ainda era legível.
Olhando para os papéis carimbados, um pequeno relance de luz atravessou seus olhos: talvez seja isso, esses variados carimbos impedem que entendam seu simples pedido.
- Vou me explicar novamente, mocinha. Eu sou um homem com mais de cinco décadas de vida, diplomado pelo cotidiano, especializado em resolver problemas corriqueiros, sem família porque não tive tempo de formar uma e confesso que também me faltou coragem para tanto. Acordo todos os dias no mesmo horário, maldizendo o relógio que não se esquece de me acordar, escovo os dentes sem olhar no espelho afinal sei de cor e salteado todas as rugas que marcam meu rosto, todas as falhas de beleza que adquiri nessa minha longa vida e tomo um café frugal...
A mocinha do alto de seus sapatos semi novos que ainda marcavam o seu calcanhar com aquela dorzinha incômoda, fez um gesto rápido de impaciência, mas recuperou-se antes de interromper aquele discurso.
- Senhor, eu não posso ajudá-lo. Tente o guichê de renovações, que fica no terceiro andar, quarta fileira à esquerda. Ele tem uma placa enorme escrito Renovações, não tem como errar.
E finalizou a informação com um enorme sorriso falso, daqueles que deviam ser vendidos em lojas de fantasias, já que mostram o que na verdade a alma não possui.
- Eu sei, eu sei. Já estive nesse guichê por três vezes.
- Então volte lá e...
- Não, não vou voltar, vou explicar o meu pedido. Talvez se entender o que quero, possa me dizer o que fazer realmente para que eu termine essa minha coleção de carimbos e guichês.
Tamborilando as unhas vermelhas no gasto balcão de seu lugar de trabalho, tão minúsculo como a sua boa vontade, a funcionária não soube o que responder e calou-se diante do argumento que até pareceu ser lógico.
- Como estava dizendo, após acordar e tomar café, visto-me com a mesmice dos meus dias e vou para o trabalho. Lá recebo uma enxurrada de formulários, quase como estes que tenho em mãos, com diversos probleminhas que vão desde pia entupida a cachorrinhos desaparecidos. Sabe, essas coisinhas do dia a dia causam transtornos razoáveis na vida das pessoas e é impressionante como ficam desesperados em passar os problemas adiante. As vezes atendo senhoras que mal me olham e já entregam o formulário, sem esperar respostas. Os homens então, são piores, jogam os formulário grunhindo algo do tipo “podia ser resolvido pela internet, que perda de tempo” e saem com seus celulares em chamas de tantas ligações que fazem em poucos minutos.
- Eu conheço esse tipo de pessoas. Isso cansa minha beleza.
Embora a beleza da mocinha não parecesse influenciada por tais pessoas, o tom de voz dela amenizou-se ao reconhecer situações que ela mesma vivia no seu trabalho diário.
- Pior senhor, é que quase sempre entregam o formulário errado e para o departamento errado. Por que não conseguem ler a placa aqui em cima que diz: “Remanejamento”? Minhas vias são sempre as vias azul clarinho. Nunca as vias azul escuro, turquesa ou azul neon. É só prestar atenção um pouquinho.
E entusiasmada por poder despejar sua frustração com as cores, ela continuo com sua tagarelice mesmo com o senhor aparentar abater-se mais um pouco com a demora e muito menos dar atenção a fila que crescia tão rápido quanto ela esquecia de suas tarefas.
- Sabe que devo ter enviado muitos formulários para o senhor? Suas vias são as amarelo pálido, não é? Problemas Corriqueiros. Sim, eu já tive muito trabalho com suas vias, são as que mais aparecem por aqui. Pior quando essas pessoas voltam, reclamando por algo que não foi resolvido e se irritam quando explico que enviei a solicitação para o departamento correto. Que culpa tenho eu que isso tudo demora mais de dez dias?
- Dez dias para me encaminhar formulários? Mas eu trabalho neste mesmo prédio, lá no subsolo.
Voltando ao seu ar de pouco caso, ela resmunga a resposta como se fosse um grande favor dizer algo aquele senhor que na verdade não deixava de ser uma colega de trabalho dela.
- E quem é que gosta de ir ao subsolo????
O senhor abaixou a cabeça e alisou pela centésima vez um formulário amarelo pálido. E conseguiu sorrir ao lembrar que entregaram um formulário que pertencia ao próprio departamento dele e que ele tinha certeza absoluta que estava errada, o que ele queria não se encaixava num problema corriqueiro ou já teria resolvido ele mesmo.
- Como eu estava falando...
Uma onda de suspiros impacientes iniciou-se na funcionária que agora lixava as unhas e estendeu-se por toda a fila que se formara atrás dele.
- ... eu recebo muitos formulários e faço meu trabalho direitinho. Acredito até que o faça melhor que muita gente, porque nunca tive um retorno de formulário sem solução adequada.
- Um funcionário exemplar.
O senhor ignorou o comentário irônico da mocinha e continuou.
- Depois do dia de trabalho, sem parar nem para tomar água, retorno para casa aonde o vazio me espera. Faço algo que posso chamar de refeição e engulo a comida. Eu sei bem que saco vazio não para em pé e o meu turno de trabalho requer horas e horas em pé.
Nesse momento a mocinha bate o salto do sapato no chão, como a concordar com a de humanidade de se ficar em pé por tanto tempo. Mas não se enganem, ela nem estava prestando muita atenção no relato, o que ela fez foi só externar sua contínua impaciência.
- Como meu salário não me permitiu comprar ainda uma TV, folheio as revistas que largam no balcão do meu guichê quando entregam os formulários e espero o sono chegar. Mas ele demora tanto, nem sempre vêm de mãos dadas ao cansaço. Por isso tenho muito tempo para pensar em nada, ou melhor, pensar na minha vida. E depois de tantos anos aguardando o sono tranqüilo dos justos, tive a idéia dessa minha solicitação.
- Finalmente. Diga qual é para que eu o despache ao guichê certo então. Mas eu tenho certeza que é mesmo o guichê de renovações.
- Mas eu não quero renovar, eu quero terminar, devolver. Quero terminar esta minha vida. Por um fim entende? Se aqui é o guichê de “Remanejamento”, porque você não pode remanejar minha vida?
- E fazer o que com ela?
- Não sei, o que você faz com o que remaneja?
- Nada.
- Como nada?
A mocinha ganha um sorriso maroto no rosto quase sem expressão e cochicha no ouvido daquele senhor com tantas vias de formulários nas mãos.
- Eu nunca remanejei nada.
- Não?
- Não. Nadinha.
- Como assim?
- Eu simplesmente encaminho para outro guichê e eles que se resolvam por lá. Eu nem sei o que faria se tivesse que recolher algo, são tantos s papeias a preencher, isso me cansaria absurdamente.
Abismado com tal confissão, o senhor chega a levantar os papéis como a querer jogá-los naquela funcionária tão relapsa. Ele que nunca tivera uma ficha sem solução, admirava-se com alguém que nunca tentara a solução para nenhuma ficha.
- E agora? O que faço?
- Não sei. Mas se não quer o guichê de “Renovação”...
- Não, não quero renovar nada, muito menos minha vida.
- Tente o guichê de “Devolução”, primeiro andar, segundo corredor à esquerda, depois terceiro corredor à direita.
O senhor olhou para os seus sapatos tentando lembrar-se de alguma outra vez que ficara tão incomodado com os seus pés perfilados sem ter para onde ir.
- Não quero devolver.
- Senhor...
- Quero por um fim. Mas não sem antes deixar tudo certinho, formulários preenchidos, treinar alguém para o meu lugar. Quero fazer tudo certo para não dar trabalho para ninguém.
- Mas senhor, se sua vida é tão desagradável, quem vai querer assumi-la? E veja bem, você deve ser o único que se preocupa com as fichas, busca soluções e deixa tudo certinho. O que será das pessoas que procurarem o seu guichê depois que você se for?
Os olhos daquele homem já meio desesperado abriram-se como nunca, em um espanto verdadeiro.
- Acho que terão alguém como você para atendê-los.
- Então...
- Então... você nem se preocupa em não ser adequada para o seu trabalho?
- Nem um pouco.
O senhor balançou a cabeça inconformado, olhou os muitos formulários preenchidos, os carimbos ocupando a maior parte do papel e relembrou de toda a sua peripécia para conseguir alguém que o ajudasse com seu pedido. Olhou depois para a fila imensa atrás dele, para o rosto sem expressão da atendente e tomou uma decisão: rasgou os papéis em vários pedaços.
Nesse instante todos que estavam naquele andar começaram a aplaudir tal gesto. Até mesmo a atendente aplaudiu.
Sem jeito, com o rosto tomado pelo rubor, o senhor foi saindo da fila e um pequeno sorriso teimou em invadir sua vida.
- Ei, boa sorte em seu guichê. E quando receber as fichas que encaminhar para você, lembre-se de mim.
- Mocinha, você será inesquecível. Sua incompetência me convenceu a ser melhor do que sou e resistir aos pensamentos negativos.
E lá foi o senhor, decidido a assumir seu guichê antes do seu horário, para fazer mais ainda pelas pessoas. No caminho, foi sendo abordado pelas pessoas da fila que queriam parabenizá-lo e aproveitavam para tirar algumas dúvidas sobre suas requisições.
Mais da metade ele encaminhou para outros locais. Da outra parte que ficou, a maioria ele pediu que o acompanhasse já que ele estaria mais apto para resolver seus pequenos problemas. O pouco que ficou para ser atendido pela mocinha recebeu dele um aperto de mão caloroso, como a encorajar na difícil tarefa que tinham pela frente.
E lá se foi aquele senhor, de vida medíocre, solitário, sem muitas aspirações, cansado na maior parte do tempo, mas definitivamente feliz por descobrir o quão necessário ele era para a vida, para alguém.
MORAL DA HISTÓRIA: Muitas vezes basta dizer ou mostrar a alguém que ele é importante, mesmo que depois você esqueça totalmente dessa pessoa. A marca que deixamos em alguém é muito mais valorosa do que possamos imaginar.
Ah, e é preferível ser o senhor de terno amarrotado que resolve os pequenos problemas do que a mocinha em seu salto alto que ignora as pessoas. Quando ele é feliz, é verdadeiro. Quando ela se acha feliz, é passageiro.
A jovem atendente até que tentou colocar em sua voz um tom sereno e piscou os olhos várias vezes, como a querer encantar aquele homem de meia idade, desconfortável dentro de um terno que nem parecia seu, demonstrando incompreensão no olhos verdes, estalados e impressionados com a resposta recebida.
- Mas... Mas... Meu pedido é simples, nada além daquilo que muitos com certeza desejam.
O senhor demonstrava sua impaciência alternando seu peso de uma perna na outra, querendo mesmo sair correndo daquele prédio frio e sem nenhum resquício de alma. Em suas mãos os intermináveis formulários azuis, verdes e amarelos, tão repletos de carimbo que ele até duvidava se o seu conteúdo ainda era legível.
Olhando para os papéis carimbados, um pequeno relance de luz atravessou seus olhos: talvez seja isso, esses variados carimbos impedem que entendam seu simples pedido.
- Vou me explicar novamente, mocinha. Eu sou um homem com mais de cinco décadas de vida, diplomado pelo cotidiano, especializado em resolver problemas corriqueiros, sem família porque não tive tempo de formar uma e confesso que também me faltou coragem para tanto. Acordo todos os dias no mesmo horário, maldizendo o relógio que não se esquece de me acordar, escovo os dentes sem olhar no espelho afinal sei de cor e salteado todas as rugas que marcam meu rosto, todas as falhas de beleza que adquiri nessa minha longa vida e tomo um café frugal...
A mocinha do alto de seus sapatos semi novos que ainda marcavam o seu calcanhar com aquela dorzinha incômoda, fez um gesto rápido de impaciência, mas recuperou-se antes de interromper aquele discurso.
- Senhor, eu não posso ajudá-lo. Tente o guichê de renovações, que fica no terceiro andar, quarta fileira à esquerda. Ele tem uma placa enorme escrito Renovações, não tem como errar.
E finalizou a informação com um enorme sorriso falso, daqueles que deviam ser vendidos em lojas de fantasias, já que mostram o que na verdade a alma não possui.
- Eu sei, eu sei. Já estive nesse guichê por três vezes.
- Então volte lá e...
- Não, não vou voltar, vou explicar o meu pedido. Talvez se entender o que quero, possa me dizer o que fazer realmente para que eu termine essa minha coleção de carimbos e guichês.
Tamborilando as unhas vermelhas no gasto balcão de seu lugar de trabalho, tão minúsculo como a sua boa vontade, a funcionária não soube o que responder e calou-se diante do argumento que até pareceu ser lógico.
- Como estava dizendo, após acordar e tomar café, visto-me com a mesmice dos meus dias e vou para o trabalho. Lá recebo uma enxurrada de formulários, quase como estes que tenho em mãos, com diversos probleminhas que vão desde pia entupida a cachorrinhos desaparecidos. Sabe, essas coisinhas do dia a dia causam transtornos razoáveis na vida das pessoas e é impressionante como ficam desesperados em passar os problemas adiante. As vezes atendo senhoras que mal me olham e já entregam o formulário, sem esperar respostas. Os homens então, são piores, jogam os formulário grunhindo algo do tipo “podia ser resolvido pela internet, que perda de tempo” e saem com seus celulares em chamas de tantas ligações que fazem em poucos minutos.
- Eu conheço esse tipo de pessoas. Isso cansa minha beleza.
Embora a beleza da mocinha não parecesse influenciada por tais pessoas, o tom de voz dela amenizou-se ao reconhecer situações que ela mesma vivia no seu trabalho diário.
- Pior senhor, é que quase sempre entregam o formulário errado e para o departamento errado. Por que não conseguem ler a placa aqui em cima que diz: “Remanejamento”? Minhas vias são sempre as vias azul clarinho. Nunca as vias azul escuro, turquesa ou azul neon. É só prestar atenção um pouquinho.
E entusiasmada por poder despejar sua frustração com as cores, ela continuo com sua tagarelice mesmo com o senhor aparentar abater-se mais um pouco com a demora e muito menos dar atenção a fila que crescia tão rápido quanto ela esquecia de suas tarefas.
- Sabe que devo ter enviado muitos formulários para o senhor? Suas vias são as amarelo pálido, não é? Problemas Corriqueiros. Sim, eu já tive muito trabalho com suas vias, são as que mais aparecem por aqui. Pior quando essas pessoas voltam, reclamando por algo que não foi resolvido e se irritam quando explico que enviei a solicitação para o departamento correto. Que culpa tenho eu que isso tudo demora mais de dez dias?
- Dez dias para me encaminhar formulários? Mas eu trabalho neste mesmo prédio, lá no subsolo.
Voltando ao seu ar de pouco caso, ela resmunga a resposta como se fosse um grande favor dizer algo aquele senhor que na verdade não deixava de ser uma colega de trabalho dela.
- E quem é que gosta de ir ao subsolo????
O senhor abaixou a cabeça e alisou pela centésima vez um formulário amarelo pálido. E conseguiu sorrir ao lembrar que entregaram um formulário que pertencia ao próprio departamento dele e que ele tinha certeza absoluta que estava errada, o que ele queria não se encaixava num problema corriqueiro ou já teria resolvido ele mesmo.
- Como eu estava falando...
Uma onda de suspiros impacientes iniciou-se na funcionária que agora lixava as unhas e estendeu-se por toda a fila que se formara atrás dele.
- ... eu recebo muitos formulários e faço meu trabalho direitinho. Acredito até que o faça melhor que muita gente, porque nunca tive um retorno de formulário sem solução adequada.
- Um funcionário exemplar.
O senhor ignorou o comentário irônico da mocinha e continuou.
- Depois do dia de trabalho, sem parar nem para tomar água, retorno para casa aonde o vazio me espera. Faço algo que posso chamar de refeição e engulo a comida. Eu sei bem que saco vazio não para em pé e o meu turno de trabalho requer horas e horas em pé.
Nesse momento a mocinha bate o salto do sapato no chão, como a concordar com a de humanidade de se ficar em pé por tanto tempo. Mas não se enganem, ela nem estava prestando muita atenção no relato, o que ela fez foi só externar sua contínua impaciência.
- Como meu salário não me permitiu comprar ainda uma TV, folheio as revistas que largam no balcão do meu guichê quando entregam os formulários e espero o sono chegar. Mas ele demora tanto, nem sempre vêm de mãos dadas ao cansaço. Por isso tenho muito tempo para pensar em nada, ou melhor, pensar na minha vida. E depois de tantos anos aguardando o sono tranqüilo dos justos, tive a idéia dessa minha solicitação.
- Finalmente. Diga qual é para que eu o despache ao guichê certo então. Mas eu tenho certeza que é mesmo o guichê de renovações.
- Mas eu não quero renovar, eu quero terminar, devolver. Quero terminar esta minha vida. Por um fim entende? Se aqui é o guichê de “Remanejamento”, porque você não pode remanejar minha vida?
- E fazer o que com ela?
- Não sei, o que você faz com o que remaneja?
- Nada.
- Como nada?
A mocinha ganha um sorriso maroto no rosto quase sem expressão e cochicha no ouvido daquele senhor com tantas vias de formulários nas mãos.
- Eu nunca remanejei nada.
- Não?
- Não. Nadinha.
- Como assim?
- Eu simplesmente encaminho para outro guichê e eles que se resolvam por lá. Eu nem sei o que faria se tivesse que recolher algo, são tantos s papeias a preencher, isso me cansaria absurdamente.
Abismado com tal confissão, o senhor chega a levantar os papéis como a querer jogá-los naquela funcionária tão relapsa. Ele que nunca tivera uma ficha sem solução, admirava-se com alguém que nunca tentara a solução para nenhuma ficha.
- E agora? O que faço?
- Não sei. Mas se não quer o guichê de “Renovação”...
- Não, não quero renovar nada, muito menos minha vida.
- Tente o guichê de “Devolução”, primeiro andar, segundo corredor à esquerda, depois terceiro corredor à direita.
O senhor olhou para os seus sapatos tentando lembrar-se de alguma outra vez que ficara tão incomodado com os seus pés perfilados sem ter para onde ir.
- Não quero devolver.
- Senhor...
- Quero por um fim. Mas não sem antes deixar tudo certinho, formulários preenchidos, treinar alguém para o meu lugar. Quero fazer tudo certo para não dar trabalho para ninguém.
- Mas senhor, se sua vida é tão desagradável, quem vai querer assumi-la? E veja bem, você deve ser o único que se preocupa com as fichas, busca soluções e deixa tudo certinho. O que será das pessoas que procurarem o seu guichê depois que você se for?
Os olhos daquele homem já meio desesperado abriram-se como nunca, em um espanto verdadeiro.
- Acho que terão alguém como você para atendê-los.
- Então...
- Então... você nem se preocupa em não ser adequada para o seu trabalho?
- Nem um pouco.
O senhor balançou a cabeça inconformado, olhou os muitos formulários preenchidos, os carimbos ocupando a maior parte do papel e relembrou de toda a sua peripécia para conseguir alguém que o ajudasse com seu pedido. Olhou depois para a fila imensa atrás dele, para o rosto sem expressão da atendente e tomou uma decisão: rasgou os papéis em vários pedaços.
Nesse instante todos que estavam naquele andar começaram a aplaudir tal gesto. Até mesmo a atendente aplaudiu.
Sem jeito, com o rosto tomado pelo rubor, o senhor foi saindo da fila e um pequeno sorriso teimou em invadir sua vida.
- Ei, boa sorte em seu guichê. E quando receber as fichas que encaminhar para você, lembre-se de mim.
- Mocinha, você será inesquecível. Sua incompetência me convenceu a ser melhor do que sou e resistir aos pensamentos negativos.
E lá foi o senhor, decidido a assumir seu guichê antes do seu horário, para fazer mais ainda pelas pessoas. No caminho, foi sendo abordado pelas pessoas da fila que queriam parabenizá-lo e aproveitavam para tirar algumas dúvidas sobre suas requisições.
Mais da metade ele encaminhou para outros locais. Da outra parte que ficou, a maioria ele pediu que o acompanhasse já que ele estaria mais apto para resolver seus pequenos problemas. O pouco que ficou para ser atendido pela mocinha recebeu dele um aperto de mão caloroso, como a encorajar na difícil tarefa que tinham pela frente.
E lá se foi aquele senhor, de vida medíocre, solitário, sem muitas aspirações, cansado na maior parte do tempo, mas definitivamente feliz por descobrir o quão necessário ele era para a vida, para alguém.
MORAL DA HISTÓRIA: Muitas vezes basta dizer ou mostrar a alguém que ele é importante, mesmo que depois você esqueça totalmente dessa pessoa. A marca que deixamos em alguém é muito mais valorosa do que possamos imaginar.
Ah, e é preferível ser o senhor de terno amarrotado que resolve os pequenos problemas do que a mocinha em seu salto alto que ignora as pessoas. Quando ele é feliz, é verdadeiro. Quando ela se acha feliz, é passageiro.
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