Interessante como o tempo (no sentido metereológico de ser) influencia o humor das pessoas.
O sol da manhã cedeu lugar a um vento frio. Dos rostos sorridentes acreditando em um bom dia, surgiu um cenho mais franzido, uma desconfiança, um recolhimento na alma.
Ao contrário do que imaginava, que o vento levaria para outras paragens aqueles sentimentos dispensáveis, o contrário aconteceu.
Uma tristeza desnecessária assumiu seu posto e tudo realmente ficou acizentado.
Resisti a tentação de ficar no meio da rua, de braços abertos, sentindo o vento e desejando que ele levasse minha agonia para longe. As pessoas não entenderiam, primeiro porque estão acostumadas a ignorar as dores e tristezas alheias, depois porque tendem a se fechar em dias assim, e não a se expor como eu faria.
Senti frio e fechei meus olhos por alguns minutos. Tentei buscar calor dentro de mim, mas o vento fustigava a alma sem me deixar aquecê-la.
Corria trás de boas lembranças, tentei recuperar na memória algum dia em que o vento e folhas dançando tivessem um significado mais brando, mas não consegui.
Abri os olhos e vi uma pequena senhora, bem simples, parada ao meu lado, remexendo em sua grande bolsa.
- Tempinho estranho, não é?
Usei meu sorriso social em que você só sorri, sem nada mais, em resposta aquela senhora desconhecida.
- Mas eu nunca saio de casa sem meu guarda chuva ou meu casaquinho.
E finalmente ela encontrou o casaquinho que procurava, já meio cansado de ficar tanto tempo na bolsa daquela senhora, não tendo mais o viço de uma peça de roupa com pouco uso. Meio amarrotado ao ser encontrado misturado a muitas coisas que sem dúvida tinham utilidade para a dona da bolsa, ao agasalhar os braços da senhorinha, pareceu aprumar-se ciente de sua importância para o calor da vida.
- Você não trouxe uma blusinha? Vai ficar com frio.
Concordei com ela e de repente o frio parecia maior ainda. Na minha bolsa não havia um casaquinho guardado, nem as miudezas que traduziam um cuidado com os revezes da vida.
- Eu sempre falo para meus filhos e netos, nunca saiam sem um agasalho, nunca se sabe para onde a vida nos leva.
Quanta sabedoria nessas palavras. Eu realmente comprovo isso hoje em dia, nunca imaginei que eu trilharia os caminhos pelos quais sigo agora e senti ainda mais falta de um casaco que me abrigasse naquele momento.
Acho que meu olhar estava tão triste e eu tão encolhida pelo vento frio, que fez a senhora aproximar-se ainda mais, como a querer dividir comigo o calor que conseguira em sua previdência.
E como toda pessoa simples e muito vivida, começou a dividir comigo suas experiências. Contou sobre o marido já falecido, tantos filhos que teve, os netos que vieram e até me contou suas vontades simples, aonde desejava voltar as terras que abrigaram sua infância.
Em poucos minutos, eu a conhecia mais do que muita gente com a qual convivo a anos.
Sorri com alguns momentos em que ela relembrava de alegrias, suspirei em momentos difíceis da vida dela, aprendi alguns truques corriqueiros para superar dificuldades.
Mas mesmo vivendo de maneira simples e sem grandes ambições, ela seguia serena. E sem passar o mesmo frio de alma e de corpo que eu estava vivendo agora.
Finalmente consegui sorrir calorosamente quando ela me contou que hoje ia fazer uma sopa gostosa, como a mãe dela fazia, que aquecia muito e sustentava como uma refeição de dez pratos.
O vento ainda castigava, mas um frugal calor conseguiu me sacudir. Tremi, como a combater o frio com a vontade de me sentir bem.
A saudade de outros dias, surpreendentemente, veio quente também. Fez bem lembrar de coisas que fazem falta, de momentos que acalentaram.
Eu confesso que já não escutava a senhora, mas para ela isso não tinha importância. De certa maneira essas lembranças que ela contava eram um casaquinho da alma, que a aquecia quando ela precisava.
Lembrei que aguardava o ônibus quando ela, contente, viu chegar a condução que a levaria para seu destino.
Não era o mesmo ônibus que eu usaria, claro. A vida tem dessas coisas, permite que caminhos se cruzem, mas cada um vive o seu destino, segue para sua direção, em companhia de quem quer ir para o mesmo lado.
Ela acenou com alegria e eu correspondi.
Subindo no ônibus, o casaquinho misturava-se com outras pessoas. Talvez mais alguém ali teria a sorte de compartilhar momentos simples e calorosos com aquele senhorinha.
Eu ainda sentia frio, mas já não estava tão triste.
Vou esperar um dia de sol, na alma e na vida. Mas enquanto isso, não me esquecerei de colocar um casaquinho na bolsa e boas lembranças na alma para algum outro dia de ventania!

Existem pessoas que conseguem fazer do simples as coisas mais importantes da sua vida. Existem pessoas que conseguem transcrever em palavras tao belas o cotidiano rico em detalhes e lições. amo isso!
ResponderExcluirsentirei sua falta! [esta semana estava em casa durante o dia, no trabalho os blogs sao proibidos. fazia tempo que nao lia coisas tao legais]
beijao querida amiga!