Setembro 23, 2010

VENTO, VENTANIA

Interessante como o tempo (no sentido metereológico de ser) influencia o humor das pessoas.

O sol da manhã cedeu lugar a um vento frio. Dos rostos sorridentes acreditando em um bom dia, surgiu um cenho mais franzido, uma desconfiança, um recolhimento na alma.

Ao contrário do que imaginava, que o vento levaria para outras paragens aqueles sentimentos dispensáveis, o contrário aconteceu.

Uma tristeza desnecessária assumiu seu posto e tudo realmente ficou acizentado.

Resisti a tentação de ficar no meio da rua, de braços abertos, sentindo o vento e desejando que ele levasse minha agonia para longe. As pessoas não entenderiam, primeiro porque estão acostumadas a ignorar as dores e tristezas alheias, depois porque tendem a se fechar em dias assim, e não a se expor como eu faria.

Limitei-me a ficar olhando algumas folhas de árvores sendo arrastadas pelo vento, dançando freneticamente.

Senti frio e fechei meus olhos por alguns minutos. Tentei buscar calor dentro de mim, mas o vento fustigava a alma sem me deixar aquecê-la.

Corria trás de boas lembranças, tentei recuperar na memória algum dia em que o vento e folhas dançando tivessem um significado mais brando, mas não consegui.

Abri os olhos e vi uma pequena senhora, bem simples, parada ao meu lado, remexendo em sua grande bolsa.

- Tempinho estranho, não é?

Usei meu sorriso social em que você só sorri, sem nada mais, em resposta aquela senhora desconhecida.

- Mas eu nunca saio de casa sem meu guarda chuva ou meu casaquinho.

E finalmente ela encontrou o casaquinho que procurava, já meio cansado de ficar tanto tempo na bolsa daquela senhora, não tendo mais o viço de uma peça de roupa com pouco uso. Meio amarrotado ao ser encontrado misturado a muitas coisas que sem dúvida tinham utilidade para a dona da bolsa, ao agasalhar os braços da senhorinha, pareceu aprumar-se ciente de sua importância para o calor da vida.

- Você não trouxe uma blusinha? Vai ficar com frio.

Concordei com ela e de repente o frio parecia maior ainda. Na minha bolsa não havia um casaquinho guardado, nem as miudezas que traduziam um cuidado com os revezes da vida.

- Eu sempre falo para meus filhos e netos, nunca saiam sem um agasalho, nunca se sabe para onde a vida nos leva.

Quanta sabedoria nessas palavras. Eu realmente comprovo isso hoje em dia, nunca imaginei que eu trilharia os caminhos pelos quais sigo agora e senti ainda mais falta de um casaco que me abrigasse naquele momento.

Acho que meu olhar estava tão triste e eu tão encolhida pelo vento frio, que fez a senhora aproximar-se ainda mais, como a querer dividir comigo o calor que conseguira em sua previdência.

E como toda pessoa simples e muito vivida, começou a dividir comigo suas experiências. Contou sobre o marido já falecido, tantos filhos que teve, os netos que vieram e até me contou suas vontades simples, aonde desejava voltar as terras que abrigaram sua infância.

Em poucos minutos, eu a conhecia mais do que muita gente com a qual convivo a anos.

Sorri com alguns momentos em que ela relembrava de alegrias, suspirei em momentos difíceis da vida dela, aprendi alguns truques corriqueiros para superar dificuldades.

Mas mesmo vivendo de maneira simples e sem grandes ambições, ela seguia serena. E sem passar o mesmo frio de alma e de corpo que eu estava vivendo agora.

Finalmente consegui sorrir calorosamente quando ela me contou que hoje ia fazer uma sopa gostosa, como a mãe dela fazia, que aquecia muito e sustentava como uma refeição de dez pratos.

O vento ainda castigava, mas um frugal calor conseguiu me sacudir. Tremi, como a combater o frio com a vontade de me sentir bem.

A saudade de outros dias, surpreendentemente, veio quente também. Fez bem lembrar de coisas que fazem falta, de momentos que acalentaram.

Eu confesso que já não escutava a senhora, mas para ela isso não tinha importância. De certa maneira essas lembranças que ela contava eram um casaquinho da alma, que a aquecia quando ela precisava.

Lembrei que aguardava o ônibus quando ela, contente, viu chegar a condução que a levaria para seu destino.

Não era o mesmo ônibus que eu usaria, claro. A vida tem dessas coisas, permite que caminhos se cruzem, mas cada um vive o seu destino, segue para sua direção, em companhia de quem quer ir para o mesmo lado.

Ela acenou com alegria e eu correspondi.

Subindo no ônibus, o casaquinho misturava-se com outras pessoas. Talvez mais alguém ali teria a sorte de compartilhar momentos simples e calorosos com aquele senhorinha.

Eu ainda sentia frio, mas já não estava tão triste.

Vou esperar um dia de sol, na alma e na vida. Mas enquanto isso, não me esquecerei de colocar um casaquinho na bolsa e boas lembranças na alma para algum outro dia de ventania!

1 comentários:

  1. Existem pessoas que conseguem fazer do simples as coisas mais importantes da sua vida. Existem pessoas que conseguem transcrever em palavras tao belas o cotidiano rico em detalhes e lições. amo isso!

    sentirei sua falta! [esta semana estava em casa durante o dia, no trabalho os blogs sao proibidos. fazia tempo que nao lia coisas tao legais]
    beijao querida amiga!

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