A Incerteza passeava lépida e cantarolando por entre as ruas da cidade. Trajando seu vestido amarelo limão (diga-se de passagem, era o seu preferido) era notada com facilidade pela maioria das pessoas.
Ela adorava chegar perto de alguém e ser reconhecida. Sua presença era tão marcante que de quem ela chegava perto, tornava-se logo amiga fiel e quase inesquecível.
Muitas vezes, na sua ousadia, abraçava quem nunca a tinha visto e por ela mudavam planos, opiniões, mudavam a própria vida.
Nesse dia específico, ela pretendia pregar uma peça em alguns velhos conhecidos, que haviam entrado para a Irmandade da Certeza, sua arquiinimiga.
Incerteza detestava essa Irmandade e arrepiava-se ao ver os mantos de cor azul escuro dos vários divulgadores dessa seita: Decisão, Firmeza, Persistência e Equilíbrio eram os mais ativos.
Eles a assustavam e ela sempre fugia de perto. Odiava quando um deles influenciava seus amigos, eles ficavam distantes demais e era muito difícil voltar a estar com eles.
Incerteza era muito jovem, não gostava de aprender coisas novas, odiava escolas e livros, afinal sua melhor amiga era a Ignorância.
Mas este dia específico que lhe estou contando, ela estava leve e solta, sem rumo, tocando as pessoas pelas quais passava.
Teve aquele jovem que estava no ponto de ônibus, pronto para seu primeiro dia de trabalho e a Incerteza o abraçou tão fortemente, que ele desistiu de embarcar nessa nova fase de sua vida, sentindo-se tão incapaz de pegar a condução, que voltou para casa cabisbaixo. Incerteza até deixou em sua face a marca de seu batom vermelho (aquele, o da cor vermelho vergonha, que ela ganhou da Ignorância em seu aniversário), só para que ele não se esquecesse dela ao olhar no espelho.
Alguns metros depois, ela deu um gritinho agudo ao avistar aquela jovem, grávida de poucas semanas, que já havia caminhado com ela tempos atrás, mas que agora parecia compreender um pouco a oportunidade de alegria que ela trazia no ventre.
Incerteza correu até ela, dançando em sua volta e bastou que tocasse os ombros da jovem para que o peso dificultasse sua caminhada, fazendo-a parar em frente de uma clínica já sua conhecida, mas que desta vez ela nem pensava em visitar. Pelo menos não até o momento em que a Incerteza apareceu.
Ela ainda viu as lágrimas nos olhos da jovem, mas só pensou que a coitadinha ficaria com o rímel borrado. Incerteza não se preocupou pela possibilidade dessa mancha seguir com a jovem para o resto da vida dela.
Um senhor de idade na outra esquina não foi visitar o neto que nunca conhecera. Dois prédios depois, um executivo rasgou o contrato que talvez lhe rendesse tranqüilidade financeira pelo resto da vida. Na escola que havia no outro quarteirão, vários alunos marcaram respostas erradas, duvidando de sua memória e do esforço feito ao estudar para a prova.
Despejando sua marca, Incerteza ria de um riso descontrolado.
E estava tão deslumbrada, que resolveu ousar ainda mais. Viu um homem caminhando de passos firmes, decidido a mudar de vida, largar a vida até então repleta de excessos. Ele deveria ser uma vítima fácil para seus encantos, mas por alguma dor muito forte, tornara distante de sua influência, como a manter em sua defesa um escudo de vontade novinho da silva.
Incerteza correu para sua frente, passando por ele, zombando de suas defesas. Murmurou nomes do passado, simulou o desespero de outras vidas e insultou-o de todas as formas.
E nada. Ele continuava em frente.
Irritada, ela aumentou seu ataque. Esbravejou, chorou, lamentou a vida que ele teve. Fez escândalo nas memórias, sussurrou em seus ouvidos a vergonha, chamou a tristeza de tempos atrás para ajudá-la e nada aconteceu.
Ele continuava em frente, em passos contidos, mas firmes.
Esgotada, a Incerteza bateu o pé e descabelou-se mais um pouco.
Nada fez efeito.
Logo a Impaciência irritou-se com tanta insistência e a chamou de lado, fazendo-a desistir. E assim Incerteza resolveu terminar seu passeio, indo para perto de corações que já choravam seus destinos, buscando agasalho em sua própria desilusão.
Enquanto ela se afastava, fui olhar mais de perto aquele homem que resistira tão serenamente a esse ataque furioso.
Nada parecia ser excepcional na figura tão comum, até que reparei que o Equilíbrio aproximava-se, quando a tarde já caía e o sol diminuía seu brilho. O homem então tirou os óculos escuros e pude ver dentro dele uma frase invisível aos olhos pouco observadores: Acredito em Mim.
O Equilíbrio piscou, como a se identificar como autor daquela traquinagem, por ter incutido ao simples homem aquilo que mais afasta a Incerteza: a Fé.
Essa foi a lição que esse dia me trouxe. Observar a Vida e conseguir enxergar aquilo que nos dá Forças, é um exercício muito bom para todos. Eu recomendo.
E não se esqueçam, andem sempre com a Fé em si mesmos, ela aproxima o Equilíbrio de nossas vidas e nos permite fazer parte da Irmandade da Certeza.
Ou então podem ser abraçados pela incerteza, em seu espalhafatoso vestido verde limão.
Tenho certeza que vocês não irão gostar dessa companhia!
Acredite em você!

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