Libs era uma libélula de vida esvoaçante, que adorava morar na lagoa próxima a cidade.
Vivia encantada com seu próprio vôo, era a melhor amiga de Perna Solta, um gafanhoto que habitava em um pé de milho, não muito distante da lagoa. Perna Solta não vivia com outros gafanhotos porque se envergonhava de sua condição física: ele nasceu com uma das pernas sem movimento e daí seu nome, dado pelo pai, um gafanhoto com imenso senso de humor.
Como Perna Solta não saia muito de casa, Libs o visitava com freqüência, contando as novidades e fofocas do local.
Ela se orgulhava muito de seu vôo rápido e das sua esperteza. Isso a ajudava muito contra o seu arqui-inimigo,o sapo Caolho, velho anfíbio que inacreditavelmente se apaixonara por Libs e jurara que um dia ela seria sua esposa.
A libélula detestava o sapo, não se sabe se por instinto ou por não gostar desse amor pegajoso! Mas também sentia prazer nessa adoração, tão incomum, que a fazia crer que sua beleza ultrapassava qualquer barreira, fazendo-a sentir a rainha do lago.
Certo dia, Libs almoçava com Perna Solta, enquanto contava as peripécias de Marcha a Ré, um besouro sem senso de direção que insistia em andar para trás. Ele era um pessimista por natureza e sempre que qualquer contava alguma história, Marcha Ré encontrava um jeito de ver o lado ruim das coisas.
Libs contou, inclusive, que Precioso, um bicho da seda ainda adolescente amigo dos monges chineses que moravam em um templo perto de lá, teria descoberto uma plantação de verduras variadas em um dos seus passeios matinais. Lá ele encontrou um pé de alface que disse ter o gosto de ambrosia, se ele tivesse um dia experimentado essa iguaria. Comida dos deuses, relatou Precioso, incentivando vários moradores do lago a irem com ele para se banquetearem com tal iguaria.
Sem pestanejar, Marcha Ré disse que com certeza essas verduras estavam repletas de inseticida, por isso o gosto tão diferente e que ao consumi-las, seriam envenenados fatalmente. O medo se estabeleceu e nem mesmo a descrição do sabor incrível que Precioso repetiu várias e várias vezes para todos ouvirem, não conseguiu convencer ninguém a ir até lá.
Mas Libs viu Marcha Ré levar essa notícia até Devassa, uma gafanhota prima do Perna Solta e líder de um grupo de gafanhotos fora da lei. Minutos depois ela levou seu bando na direção apontada pelo Precioso e a libélula foi atrás. Ela os viu saquear todas as delícias daquela plantação, fugindo carregados de sacos e sacos de verduras deliciosas, devorando algumas pelo caminho.
E quando Precioso voltou ao local acompanhado de dois ou três corajosos ou curiosos, nada mais havia por lá. Indescritível foi a alegria de Marcha Ré ao saber da tristeza de Precioso. O besouro sentia um prazer imenso em sonhos despedaçados!
E entre essa e outras histórias, a vida passava entre as árvores, pelas águas do lago, por cima das nuvens, no calor do Sol.
Certo dia, apareceu na lagoa, uma bela borboleta azul e amarela. A beleza dela era tão deslumbrante, que até o Caolho começou a enxergar bem. Só precisou de um bater de asas para o velho sapo esquecer o amor pela libélula, entregando seu coração para aquela forasteira.
Anabela, a bela borboleta, pousou com cuidado em um galho de árvore. Disse um olá para todos e ficou a aquecer no sol da manhã, como se pertencesse aquele lugar pela vida toda dela.
Não explicou quem era, não contou sua história, não pediu licença. Veio para ficar e ficou. Em pouco tempo, era a rainha do lugar, com sua excêntrica certeza de que nada era mais belo do que seu vôo, do que suas asas, do que ela.
Libs agitou-se em um mar de ciúmes e foi direto para a casa do Perna Solta desabafar sua raiva. Quem era essa sirigaita esvoaçante, que chegava sem aviso e instalava-se como dominante?
O gafanhoto argumentou que contra beleza não há defesa, mas que teria fim, porque nada é belo para todo o sempre.
Indignada, Libs não quis ouvir, deixou Perna Solta sozinho em sua solidão, quieto em sua ausência de palavras, inerte diante de sua limitação. Ele não aprendeu a superar seus limites e foi sufocado por eles em toda sua vida. Não era só a perna que era solta, mas sua auto estima também não se prendia nas qualidades que ia além de um defeito de nascença.
Voando com as asas da inquietação, Libs foi correndo desabafar com o Pastor, um louva-deus que costumava reunir aqueles que se desesperavam na vida. Nunca se soube se ele ajudou alguém, porque todos que o procuravam acabavam por sumir da região. O Pastor dizia que eles descobriam novos caminhos e partiam para uma vida melhor. Se isso era verdade, ninguém sabe.
Libs desabafou, chorou, reclamou e amaldiçoou a borboleta que roubara seu esplendor.
O Pastor nada disse e muito falou em seu silêncio, porque a cada eco de seus desabafos, Libs acreditava que o louva-deus a apoiava e em sua necessidade de revolta, entendeu que o Pastor indicava o caminho da luta pelo que ela acreditava lhe pertencer.
Perna Solta e o Pastor ficaram para trás. Libs mais uma vez partiu, sem ver anda pela frente, como Zoiudo, um vagalume que se apaixonou por uma lanterna esquecida acesa perto de uma árvore caída e ficou cego de amor. Dizem que quando a lanterna se apagou, Zoiudo também morreu, mas isso também é outra história.
A libélula foi procurar Anabela e a encontrou nos braços de Caolho, o sapo. Amor e ódio nunca estiveram tão perto um do outro como nessa união de diferenças.
Libs não acreditou e chorou. Mas chorou tanto que quase se afogou.
Sem ter o que fazer porque só pensava em futilidades, Libs desistiu e em direção ao Sol ela voou.
O último a vê-la foi Marcha Ré. Mas nem tentou socorrê-la, ocupado demais em caminhar para trás.
Até hoje não se sabe o que aconteceu. O Pastor acredita que Libs encontrou um novo caminho, porque é o que ele quer acreditar.
Marcha Ré não se importa com o que houve, ele vive do passado e nele Libs ainda faz parte de sua vida.
Caolho, o sapo, que cansou de esperar por Libs, vive feliz com seu novo amor.
Anabela que não se esforça para ser bela, nunca conheceu realmente a libélula e na sua vaidade, não acha que realmente seria importante mais um em sua vida.
Precioso sempre está ocupado demais com o que tem, não tem tempo para se preocupar com outros.
Só Perna Solta sente falta de Libs, porque percebeu que mesmo frugal cada vida é importante. Como ele não pode ajudar sua amiguinha, ajudou a si mesmo, vencendo seus limites: saiu do pé de milho aonde morava, desafiou e venceu a Devassa e é líder do grupo agora.
E Libs? O que realmente aconteceu?
Não sei dizer, mas se encontrar uma libélula por aí, pergunte se não é ela.
Quem sabe ela realmente encontrou um novo caminho. Pelo menos é isso em que quero acreditar, porque finais felizes são muito bons seja em contos, em livros ou até na vida real.

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