Novembro 30, 2010

UM GRÃO DE ARROZ

Injustiças são como mel para as abelhas oportunistas, que circulam em volta a querer deixar seu ferrão como prova de que são mais “espertas” que a maioria e sabem aproveitar as brechas do equilíbrio para tirar vantagens.

Impressionante como determinadas pessoas conseguem promover injustiças só fazendo alguns comentários.

Essas pessoas são como os moinhos de vento, que meu lado Dom Quixote insiste em não compreender. O porquê de tais atitudes deve estar muito bem sedimentado no caráter de cada um, já que se percebe que são recorrentes.

Se formos pelo mérito que tudo é relativo, dirão que nem sempre quem comete injustiça pretende fazer isso, mas isso não seria acusar a lebre quando se descobre que comprou o tal gato por lebre?

Sempre falo que o bom comerciante conhece sua mercadoria. E que cada um deve saber o que está falando ou fazendo, nunca assumir as atitudes de outros só por comodidade.

Essa questão é meu ponto fraco. É o que me tira do sério com facilidade.

Vou contar uma historinha para ilustrar o tema:

“Jussara era uma ervilha nascida em vagem de ouro. Ela era muito bonita, quase uma princesa.

Desde pequenina, fizera amizade com Branquinho, um grão de arroz que nascera todo quebradinho e tão pequeninho, que sempre ficava de lado nas brincadeiras de criança que aconteciam na vila em que viviam.

Os dois estavam sempre juntos, brincavam muito e riam tanto que acabavam sempre rodeados por outras crianças, atraídas pela alegria. Mesmo assim, quando eram formados times ou equipes, a alegria de Branquinho ficava no banco da torcida.

Com o tempo, Pipoca e Raimundo juntaram-se a eles, formando um quarteto inseparável. Pipoca era um milho forte, robusto e vivia se metendo em encrenca por ser valentão. Já Raimundo era um grão de feijão compenetrado e estudioso, sendo o mais culto de todos.

Raimundo adorava reunir os moradores da vila, em noites de lua cheia, para contar histórias. Passava horas e horas contando aventuras lidas em livros antigos ou ainda contando histórias que ele próprio inventava.

Certo dia, a diversão foi interrompida por uma patrulha de feijões mexicanos saltitantes, que logo perguntaram pelo Branquinho. O motivo é que encontraram cascas de arroz no local de um ato de vandalismo, aonde picharam a imagem do prefeito da vila, Ilustríssimo Grão Douradão, o mais poderoso da família de grão de bico.

Bastou que uma quirela que transitava pelo local, gritasse em voz mais alta que o zum zum zum formado pelos curiosos que só podia ser coisa do Branquinho, que devia ser revoltado por suas condições físicas, para que o coletivo assumisse esse pensamento como verdade absoluta.

E por isso a patrulha saltou do local do crime para o local das brincadeiras, sem nem mesmo deixar que a equipe do LIC (Lentinhas de Investigação Criminal) apontasse algum suspeito conforme as provas, que com a correria para a prisão do suposto meliante, espalharam-se ao vento.

Jussara indignada levantou-se diante da patrulha e impediu que Branquinho fosse preso, com a sua autoridade natural. A postura da bela ervilha, com o apoio de Pipoca e Raimundo, evitou que o pobre menino fosse arrastado e catapultado a uma cela escura, tão pouco usada naquela vizinhança pacífica.

Mas as acusações continuavam. De uma quirela espalhou-se pela comunidade, como se fosse dia de colheita.

O pequeno Branquinho que mal conseguia participar de brincadeiras em grupo com crianças de sua idade, transformara-se em um criminoso capaz de danificar uma estátua que para Branquinho era quase da altura do céu, de tão grande que lhe parecia.

Logo surgiram comentários que ele fora impulsionado pela revolta que teria de sua condição inferior. Mais alguns comentários maldosos colocaram um amor platônico pela bela Jussara, inconsistente até pelo fato de serem meras crianças.

A família do acusado dividiu-se: de um lado seus pais e irmão que acreditavam na inocência de Branquinho e do outro, ficaram os grãos de arroz parbolizados, que nunca aceitaram aquele menino que com sua aparência inferior, envergonhava os grãos nobres da família.

E a confusão continuou até que o Velho Peanuts, um sábio amendoim que passava seus dias em meditação espiritual, interrompeu seu silêncio e pediu a palavra.

Logo todos se reuniram em torno do sábio, que era respeitado e merecia a atenção de todos.

- Amigos, percebam, a maioria está sendo guiada por um chacoalhar de acusações que mais parece palha solta ao vento. Branquinho tem duas coisas que o inocentam: sua moral e sua condição física. Ele é inocente.

- Mas as palhas de arroz provavam que ele esteve lá. – Dona Relinha, a quirela que acusou da primeira vez, agitou mais uma vez

- Provam? Tem certeza?

O silêncio formou-se, como uma tempestade. Ninguém podia garantir essa certeza.

- Na falta de provas, têm-se os motivos. – arriscou um tio do próprio acusado.

- Está me dizendo que somente Branquinho, em toda a comunidade, tem motivos para estar insatisfeito, triste, revoltado contra a autoridade ou frustrado? Todos os demais nunca tiveram sequer um pensamento desse tipo? Ninguém mais aqui ou além poderia ter cometido o crime porque só ele teria esses sentimentos?

Outro silêncio. Mais pesado ainda.

- Mas as cascas de arroz perto da estátua...

- Podem ser de outro arroz? Podem ter sido trazidas pelo vento até o local? Ou já estarem lá a alguns dias?

Desta vez o silêncio poderia ser cortado com uma faca, tal sua densidade.

E para tanto, uma voz afiada levantou-se no meio da multidão:

- Eu sou admirada pela beleza externa, mas muito mais belo é Branquinho em sua alma e em seu coração.

Todos olharam para Jussara que abraçava o amiguinho, desafiando quem tentasse se aproximar.

- Eu também acredito na inocência do Branquinho, tenho certeza que irão encontrar o verdadeiro culpado – disse Jão, um grão de mostarda que se juntou a Jussara.

- Tão pequeno, com tanta fé! – exclamou o sábio. – Sigam o exemplo dele, meus caros e afastem a injustiça de suas vidas.

Nesse momento, sentiram que a injustiça fora plantada em suas almas. E eles regaram com o preconceito, com o julgamento imediato e com a predisposição em acusar.

A primeira voz foi de uma quirela. Mas quem marchou pelo som dessa acusação, foram todos que tinham dentro de si essa semente.

E nem tiveram tempo para arrependimentos; nesse instante surge Pablo, um dos feijões saltitantes que seguira um rastro que encontrara ao lado do local do crime, por opção própria e amor pela verdade. Junto dele seguia um grão de joio, devidamente algemado.

- Eis o culpado! Cizônio detesta o prefeito e o pai de Branquinho. Pichou a estátua e ainda espalhou as cascas de arroz para incriminar a família de arroz.

Um suspiro de alívio mesclado com um murmúrio de vergonha acolheu o policial com seu prisioneiro.

O velho Peanuts sorriu ao ver Jussara abraçar Branquinho e Jão. Logo pais e irmãos do pequeno grão de arroz juntaram-se a essa comemoração. Depois alguns outros. E mais e mais.

O sábio despediu-se dizendo:

- As cascas de arroz podem parecer culpadas em suas vidas, mas é necessário arrancar o joio que cresce nos corações, como erva daninha de injustiça, para aprender a ver além do superficial.

E assim a vida voltou a caminhar com o passo de rotina naquela pequena vila. Menos para Branquinho, que finalmente começou a participar das brincadeiras com outras crianças.



MORAL DA HISTÓRIA: O sábio Peanuts já deixou a moral da história bem clara, mas só quero completar: não espere que a injustiça surgir dentro de você para depois arrancá-la, adote o cultivo de boas sementes para uma boa colheita! O Branquinho e todos que sofrem ou sofreram com injustiças, agradecem!

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