Janeiro 10, 2011

A BALANÇA DA DONA MARIQUINHA

- Ei, Dona Mariquinha, que balança é essa? – perguntou a vizinha que espiava por cima do muro quando Dona Mariquinha arrumava a cozinha, como era seu costume.

Toda sexta feira ela tirava tudo dos armários e passava horas limpando, arrumando.

- É a balança da minha vida, Dona Gertrudes.

Claro que a vizinha arregalou os olhos, pensando que a Dona Mariquinha, senhora de tantos e tantos anos estava caducando finalmente.

- Como assim?

Com um sorriso compreensivo no rosto, Mariquinha logo convidou:

- Vem tomar um café que eu conto a história dessa balança. Aproveita e passa na casa da Dona Ermenciana que pelo cheirinho gostoso, acabou de fazer um bolo. Diga para ela vir com você também.

Sem ao menos responder sim ou não, lá foi Dona Gertrudes bater na casa 35 da pacata vila. Todos sabiam que sexta feira também era o dia da pequena senhora que morava com um sobrinho e alguns gatos, fazer um bolo esperando a visita do filho, que nunca aparecia.

Por isso nunca faltava para ela um convite para tomar um lanche a tarde, para o qual ela levava o bolo quase inteiro, sem antes reservar dois belos pedaços: um para o tal filho e outro para o sobrinho. Seria muito triste que o bolo amanhecesse esquecido na casa de Dona Ermenciana ou fosse alvo d formigas ou de tristeza, por issoa as vizinhas comiam o bolo e o sobrinho cuidava dos dois pedaços que ficavam.

Já a vizinha Gertrudes, que espiava por cima dos muros, nada tinha para fazer. A casa era limpa por uma diarista, os filhos já crescidos não tinham hora para chegar em casa, o marido não gostava de sua comida e fazia as refeições fora de casa (dizem as más línguas que ele nunca estava sozinho, mas isso não nos interessa realmente, nem para Gertrudes, que acostumara a passar seu tempo vivendo a vida dos outros).

Vez por outra era Dona Marilinda que oferecia a casa para o lanche da tarde de sexta feira, mas como vivia de regime, não comia o bolo, usava só adoçante, oferecia um chá muito amargo e nunca tinha nada de gostoso para oferecer às visitas, tudo na casa dela era light, diet ou natural.

Quando ela viu, pela janela da cozinha, as vizinhas movimentando-se em direção a casa de Dona Mariquinha, apossou-se de seu adoçante, de alguma fruta para acalmar a fome e jogando o avental na caderia, partiu para se juntar a comitiva.

Nenhuma das vizinhas precisava exatamente de um convite, era só começar a romaria para alguma das casas e lá iam todas, cada uma com sua vidinha embaixo do braço e a ansiedade por uma conversa enfeitando o peito como um colar de estimação.

- Sejam bem vindas, meninas. Venham, venham. O café já está passando e eu tenho alguns biscoitos deliciosos que fiz ontem, que irão acompanhar o bolo da Dona Ermenciana.

Na cozinha de Mariquinha, a arrumação foi colocada de lado e em poucos minutos, lá estava a mesa esperando a vizinhança.

Xícaras de diversas cores, pratinhos simples, uma travessa de biscoitos e o sorriso de Dona Mariquinha decoravam o ambiente, repleto com o perfume do café fresquinho.

- Dona Mariquinha, eu posso fazer meu chá?

- Claro, claro, fique a vontade.

A travessa com o bolo trazendo um vazio na lateral, que lembrava a todas da esperança de Ermenciana de ver o filho (esperança essa que morria sempre na manhã do sábado), foi para o centro da mesa.

Minutos depois, entra Dona Joaquina com uma forma com uma torta corada e cheirosa, que acrescentaria suspiros ao lanche daquela tarde.

- Desculpe trazer a torta na forma ainda, não queria que esfriasse até chegar aqui.

Todas assentiram com a cabeça e lançaram um grande sorriso em direção á vizinha que chegava, mas todas sabiam que o motivo da torta estar na forma ainda era que Joaquina provavelmente saira furtivamente de casa, evitando qualquer barulho que acordasse o companheiro jogado no sofá, completamente alcoolizado.

Ninguém tinha coragem de falar a ela que não precisava correr tanto, nem ter cuidado com o barulho, porque o grau de bebedeira do companheiro de Joaquina impedia que ele acordasse até mesmo com um terremoto. Mas quem se atreveria a dizer isso para ela, que sofria horrores com os escândalos dele, ao chegar em casa com suas centenas de garrafas sorvidas em poucos goles, causadoras da desistência  de Dona Joaquina em sonhar com  alegria dentro de casa.

- Não se preocupe, minha amiga, rapidinho cortaremos a torta. Pode colocar os pedaços de torta aqui, nesta outra travessa.

Enquanto falava, Dona Mariquinha passou o braço por cima dos ombros da amiga, aconchegando-a perto do coração. Era naquela casa que Joaquina sempre procurava abrigo quando a situação piorava em sua própria casa.

Todas ajudaram, ajeitaram o que precisava, colocaram o café no bule e sentaram, para um dos melhores momentos da semana: conversar.

As notícias, a novela, os novos programas, os fuxicos da vila, logo foram fluindo junto com o café, os quitutes e a companhia.

-  Dona Marilinda, - exclamou Mariquinha - deixa disso, pare de catar as migalhas de bolo e da torta, só hoje deixe esse regime de lado e coma uma fatia inteira de bolo. É de aipim com cöco, está delicioso!

Sorrindo sem graça por estar colhendo migalhas, tentando aplacar a fome e a vontade dos quitutes, Marilinda deu de ombros e pegou uma bela fatia de bolo, alguns biscoitos e um generoso pedaço de torta. Como sempre fazia, depois que uma delas dava uma bronquinha e insistia que “só daquela vez”, ela deixasse a escravidão de seu regime de lado.

O marido de Dona Marilinda era exigente, não suportava mulheres descuidadas ou gordas e era um verdadeiro carrasco na alimentação da esposa subserviente, depressiva e neurótica por qualquer grama que pudesse vir a ganhar.

Naqueles lanches, ela era a mais feliz pela mesa oferecida. Era o único momento que comia sem culpa e sem recriminações.

- Bom, mas vamos lá, que história é essa de balança, Dona Mariquinha.

Enquanto falava, Gertrudes apontou para a balança antiga, mas muito bem conservada, que estava na pia, visivelmente após uma minuciosa limpeza.

- Eu vou contar para vocês a história dessa balança. Não sei como nunca conversamos sobre ela, talvez porque normalmente ela só sai do meu armário umas poucas vezes ao ano e ultimamente tenho evitado mexer com ela.

- Por que? – quiseram saber.

- Para explicar, primeiro vou contar a história da balança:

“Minha bisavó, há muito e muito tempo atrás, perguntou a mãe dela, certa vez, se felicidade podia ser medida.

Coisas de criança de antigamente, que demoravam muito mais do que as crianças de hoje em dia, para saber sobre as coisas da vida e que espelhavam tudo que não conheciam com os afazeres domésticos de sua mãe.

A sabedoria daquela época falava também de uma forma comparativa e como a mãe de minha bisavó estava justamente fazendo um bolo naquele momento, parou um pouco e depois de pensar alguns minutos, disse a sua filha:

- Minha querida, a felicidade pode ser medida por uma balança como esta, que era usada pelo seu avô anos atrás. - disse minha bisavó, colocando a massa do bolo para assar,

A menina olhou a balança que na época já era antiga.

- De que jeito mamãe?

- Você está vendo que a balança tem dois jogos de pesos e que cada um tem seu peso diferente, mas se colocarmos um de cada lado, a balança ficará equilibrada?

- Sim, sim . A felicidade é um desses pesos?

- Não minha querida, preste atenção: cada um dos pratos da balança representam a atenção e os sentimentos que você vive na vida. De um lado, é o prato da atenção e sentimento que você recebe e do outro, aquilo que você dá.

E ela continuou, observando que a filha prestava muita atenção: - Quando a pessoa nasce, os dois jogos de pesos vão para o prato daquilo que a pessoa recebe: todos dão atenção, carinho, amor e tudo mais para os bebês que chegam. Aos poucos, conformem vão crescendo, esses pesos vão passando de um lado para o outro, conforme cada um vai aprendendo a dar também aos outros o que recebe.

- É como um jogo mamãe?

- Depende, minha filha. Para muitos a vida é uma brincadeira, para outros é algo mais sério. E com o passar do tempo, uma hora um dos pratos da balança fica mais pesado, outros tempos é o outro lado que sente o peso. Tudo depende do quanto recebemos e do quanto damos.

- E a felicidade é a balança?

- A felicidade é o equilíbrio, criança. Quando os dois pratos estão no mesmo nível, você é uma pessoa feliz. Você dá e recebe atenção, amor, carinho, risos e tudo mais.

- E quando a balança fica igual, nunca mais muda?

- Muda sim, minha filha. Para muitos muda constantemente. Para outros, só pende para um lado a vida toda. Eu faço assim, de vez em quando pego a balança e vou colocando os pesos, de acordo com o que vivo. Depois que coloco todos, vejo como está e se não estiver equilibrada, vou tentar arrumar isso.

- Parece difícil!

- Sim, é difícil. Por isso que quando conseguimos o equilíbrio, é bom aprender como fizemos para continuar dessa maneira. Mas tem pessoas que se contentam em ter pesado somente o prato do que dão ao mundo. Outros insistem em querer mais peso no prato de receber.

- É muito triste quando se peso só no prato de dar. É como fazer um doce e não comer nenhum pedacinho – replicou a criança, em sua forma de ver o mundo.

- Por isso que eu sempre experimento tudo que faço, porque gosto de ver meus filhos, netos, visitas, apreciando o que faço, mas eu também quero saber se é gostoso. – completou a mãe de minha bisavó, abraçando sua netinha e aproveitando para colocar nesse abraço um peso de cada lado da balança.

- Eu posso ter uma balança dessas, mamãe?

- Claro, vamos fazer o seguinte: eu vou lhe dar esta minha balança. Vamos guardá-la no armário só para usarmos de vez em quando para medir nossa felicidade. Que tal?

Minha bisavó bateu palmas efusivamente e começou a dançar pela cozinha, cantando que tinha uma balança de medir felicidade. Esta é a história.”

Assim que Mariquinha terminou a história, todas olharam para a balança antiga.

- E essa é a balança?

- Sim. Minha bisavó contou essa história para minha vó e deu-lhe a balança. Minha vó, por sua vez, contou para minha mãe, que herdou a balança. E minha mãe, que tinha três filhas, eu e minhas duas irmãs, contou a história e como nenhuma das minhas irmãs interessou-se pela balança da felicidade, eu ganhei a honra de te-la comigo.

- E você vai dá-la para quem, Dona Mariquinha?

O silêncio invadiu a cozinha depois dessa pergunta inoportuna de Dona Gertrudes.

Mariquinha não tinha filhos. Ou teve, mas os perdeu. Uma história triste que poucos detalhes se sabia, mas quando Mariquinha veio morar na vila, ela já veio sozinha, com seus parcos pertences, nos quais hoje sabemos que estava incluída a balança da felicidade.

Dona Ermenciana pigarreou, tentando se recuperar, porque seus olhos estavam tão cheios de lágrimas que nem sabia como controlar. Ela sabia o quanto Mariquinha devia estar triste agora.

Mas sem perder a tranqüilidade, adquirida pelo costume de sua situação, Mariquinha suspirou e respondeu:

- Uma sobrinha minha, que soube da história, tem interesse na balança. Ela é um doce de pessoa e nem precisa dessa história para saber que é feliz, mas dessa forma, permitiu que na última vez que usei a balança, eu conseguisse colocar um peso no prato do receber, já que não gostaria de ver essa balança jogada em algum lixo ou até se transformando em peça de museu, sem que soubessem de toda sua história.

Suspirando aliviadas, elas voltaram a conversar sobre outros assuntos, mas todas vez por outra, espiavam a balança. Só que nenhuma delas teve coragem de mexer nos pesos e dividir entre os pratos.

- Dona Mariquinha, você ainda coloca os pesos nos pratos? – perguntou Gertrudes, que precisava urgentemente colocar algum bocado de quitute na boca e parar com perguntas embaraçosas.

- Não, vizinha, não. Eu até fiquei tentada hoje, mas depois que coloquei o peso que representava minha sobrinha, um que representava a visita de vocês, vi que era melhor parar de usar a balança. Prefiro pensar que um dia ela já esteve equilibrada.

Com alguns sorrisos amarelos, todas voltaram ao café e quando perceberam que o bule estava vazio, uma movimentação intensa se formou na cozinha para uma nova leva de café quentinho ser preparado.

Ninguém mais falou na balança e desde esse dia, todas começaram a se reunir mais vezes durante a semana e não mais só de sexta feira.

Dona Ermenciana agora fazia bolos não mais só para deixar a fatia ao filho que nunca a visitava, mas especialmente para dividir com as amigas.

Dona Marilinda passou a esquecer o adoçante em casa quando ia tomar lanche com as vizinhas e nunca mais ficou com peso na consciência.

Dona Gerturdes passou a cuidar mais das perguntas que fazia e se aprimorou em bons comentários, para alegria de todas. Deixou o sarcasmo comum em seu lar guardado em uma gaveta e buscou mais atenção de todos em sua casa. Dizem que se entendeu com o marido, que continua não gostando de sua comida, mas que agora traz as refeições prontas para comer em sua própria casa, ao lado de sua esposa.

Dona Joaquina tomou coragem de pedir aos filhos que providenciassem um tratamento para seu marido e foi vencendo o medo que tinha, arrumou um trabalhinho, foi fazer um curso de artesanato e não mais sai escondida de casa.

Dona Mariquinha resolveu dar a balança da felicidade a sua sobrinha sem esperar que ela recebesse por herança e nesse dia suspirou aliviada. Mas guardou o peso que representava as vizinhas e em todos os lanches, ele servia de enfeite para a mesa, lembrando a todas a razão de estarem juntas.

Depois que o tempo levou Dona Mariquinha embora, as vizinhas que ainda estavam por lá souberam que a sobrinha dela deixou a balança como enfeite em sua casa e encheu os dois pratos de vasinhos de flores, alegrando o ambiente. Os pesos, pelo que se sabe, estão bem guardados, porque eles merecem existir já que marcaram a felicidade de tantas gerações naquela família.


MORAL DA HISTÓRIA: Tão importante quanto colocar os pesos nos dois pratos da Balança da Felicidade, está a responsabilidade de não desequilibrar a balança das pessoas que vivem ao seu redor. Pense nisso e monte sua Balança da Felicidade mentalmente: quem sabe você tem mais pesos no prato de receber e precisar dar um pouco de alegria a quem você ama.

Com certeza, sua balança ficará mais equilibrada.

Mas se do contrário você tem muitos pesos no prato de dar e está precisando de alguns pesos no prato de receber, busque um amigo ou alguém da família que gosta muito. Se não tiver, convide os vizinhos para tomar um lanche, comer uma fatia de bolo e tomar um cafezinho, isso ajudou a Dona Mariquinha e pode ajudar a você também!





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