Março 09, 2011

SONHOS

“- Mamãe, mamãe!!!

Com uma voz chorosa e olhar triste, a pequena menina corre em direção a sua mãe, com os braços erguidos já aguardando o colo querido que a abrigará tão rápido quanto possa.

Abraçando a filha pequena, com seus meigos 8 anos, a aclamada mamãe estranha o rosto triste de sua filha, que acabou de acordar de um sono aparentemente agitado.

- O que foi, filhinha?

- Mamãe... (pausa para um delicado soluço e uma tentativa de reter as lágrimas).. eu perdi meus sonhos!

Depois de um forte abraço, vários beijos para consolar, um rápido enxugar das lágrimas teimosas e algumas palavras carinhosas, a mãe leva a menina até a pia do banheiro, para lavar o rosto e entender o que realmente tinha acontecido.

- Mas, minha querida, o que houve?

De rosto limpo, mas ainda mantendo-se agarrada a seu porto seguro, a pequena menina ameaça chorar mais um pouquinho, mas o carinho da mãe a faz respirar fundo para começar a explicação.

- Eu acordei e meus sonhos tinham ido embora.

Com um suspiro de alívio diante da constatação que nada grave aconteceu, um colo de consolo, mais um abraço forte e a ida até a cozinha para providenciar um animador café da manhã dão uma pausa na explicação. Só depois de alguns sorrisos encorajadores e uma boa caneca de leite com chocolate quentinho, a conversa continua.

- Filha, explique direito para a mamãe o que a assustou.

- Mamãe, sabe aquela linda lata que ganhei da titia, aquela cheia de peixinhos e conchas?

A bondosa senhora acenou positivamente, lembrando da lata decorada com imagens do mar e com conchas coladas, que fora presente de sua irmã para a pequena sobrinha.

As três adoram o mar e a pequena lata pareceu perfeita para que a criança guardasse seus inúmeros bottons, desenhos, bijuterias e outras coisinhas que tinham algo ligado ao amado mar. Toda a família sabia dessa paixão em comum entre as três, que ganhavam constantemente itens relacionados ao tema, aos quais eram guardados com muito carinho.

Mas ao contrário de transformar-se em um relicário que guardasse essas coisinhas, foi eleito pela menina como o melhor lugar para guardar seus sonhos. Ela disse ao olhar a linda lata, que ela era tão bonita que seria um lar perfeito para seus sonhos.

No começo a menina colocou algumas coisinhas que simbolizavam o que ela desejava, como uma recorte de uma bicicleta rosa que desejou anos atrás e que saiu da lata assim que foi presenteada em um Natal passado. Tomou o seu lugar miniaturas de bonecas, fotos de lugares que ela queria voltar a visitar, entre outras coisas. Com o tempo, saíam da lata conforme eram recebidos como presente, ou o passeio era realizado ou o desejo fosse realizado.

Depois de um tempo, ao invés de colocar figuras ou símbolos do que sonhava, do que planejava, a pequena menina começou a “ conversar” com a lata, depositando seus desejos dessa maneira.

De vez em quando ela colocava na lata algumas flores, pedrinhas coloridas, papel picado tão colorido também. Tudo passava um tempo e depois era substituído por outro enfeite.

Já era comum a menininha brincar com a lata ao lado, aberta quando ela tinha um desejo, o qual contava para a lata, como se ela fosse mágica. Depois fechava-a, deixando na cabeceira de sua cama até quando o desejo fosse realizado ou outro sonho viesse fazer companhia às doces aspirações da criança.

Era dessa lata que a menina falava com a mãe naquela manhã.

- Sim, querida, claro que lembro. O que houve?

Um soluço acompanhou uma mordida no pão com manteiga. Uma lágrima quis brincar de vôo livre indo parar dentro da caneca com o leite já morno.

- Eu guardei meus sonhos lá, mamãe e eles se foram.

- Como assim querida?

A menina olhou para a mãe sorvendo mais vorazmente o carinho que encharcava cada palavra que sua mamãe dizia do que o leite com chocolate, tão gostoso quanto pode ser uma bebida da infância.

- Eu acordei e a lata estava aberta, mamãe. Meus sonhos foram embora.

E esquecendo de tudo mais, a menina abraçou a mãe, chorando copiosamente ao relembrar da sensação de acreditar que perdera seus desejos e esperanças.

- E agora mamãe?

Sem saber o que responder de imediato, a senhora retribuiu o abraço e debulhou-se em mais palavras de carinho, de ânimo, buscando em si algo convincente para falar, buscando a sabedoria que só as mães possuem, para não criar abismos assustadores dentro de alma tão frágil como a de uma criança.

- Minha filhinha, nada de ruim aconteceu. Seus sonhos ainda estão com você, no seu coração.

- Mas eu os guardei na lata, mãe. Para não esquecer deles.

E tomando fôlego, um sorriso acendeu os olhos daquela mãezinha.

- Só que eles sentiram sua falta e voltaram para dentro de você. Estão todos aí dentro, felizes por estarem pertinho de você.

- É?

- Sim, é sim. Olha só, senta aqui na frente da mamãe e pensa em algo que você deseja.

Enxugando as lágrimas mais uma vez, a menina sentou-se diretinho, deixando a coluna reta, quietinha, mas manteve suas mães guardadas nas mãos de sua mãe, em seu porto seguro.

Alguns minutos de silêncio e depois uma risada gostosa aqueceu todo o ambiente.

- Eu quero uma blusa amarela com um cavalo marinho bordado – quase gritou a menina, entre risos. - E passear no parque com a titia. E comer pudim. Quero ir na casa da vovó. E que o papai volte logo.

Rindo junto com a filha, a senhora aliviada pela pequena crise superada, soltou-se das mãos da filha para aplaudir efusivamente.

- Pronto, encontrou seus sonhos não é?

- Sim, eles estão todos aqui dentro. – respondeu a menina, apontando para ela mesma. – E mamãe, quero ser linda como você quando crescer. E sabida como você também!

As duas riram e conversando sobre o passeio que fariam com a titia, a visita na casa da vovó, a volta nos próximos dias do pai que viajara a negócios, ficaram um tempinho na cozinha, enquanto a senhora começava a preparar um pudim de sobremesa.

A pequena criança foi para seu quarto depois e viu a lata destampada em cima da cama. Provavelmente o gato da família tinha derrubado a lata durante a noite, que não tão bem fechada, abrira-se para pregar esse pequeno susto em sua dona. Ou algo assim. Mas os sonhos estavam preservados dentro da menina e isso era que importava.

Depois desse dia a lata ficou repleta de todos os presentinhos que recebia com o tema do mar. Virou finalmente um querido porta tudo, depois de alguns anos transformou-se em um porta bijuterias somente e anos mais tarde guardava em si lembranças de tantos lugares que a menina, nessa época já uma mulher, visitou em tantas viagens que sonhou fazer e fez.

Por ser mais seguro, desde aquele dia a menina guardou seus sonhos dentro de si e os associou ao amor de sua mãe, ao leite com chocolate e pão de manteiga repletos de entendimento, a passeios com quem ama, com visitas de quem lhe incentivava a seguir seus ideais e também ao exemplo de quem lutou por isso. E quando conseguia realizar um sonho, sempre comemorava com um doce pedaço de pudim, como uma recompensa por não perder seus sonhos.”


Hoje, nesta quarta feira de cinzas, não encontrei minha lata decorada com estampas do que mais gosto.

Olhei para dentro de mim e não encontrei nenhum vestígio de sonhos.

Acordei para viver o dia, sem planos maiores para amanhã. Não pude correr para os braços de minha mãe, mas pensei nela com carinho.

Até pensei em tomar uma xícara de leite com chocolate, mas o relógio me cobrava o atraso.

A única coisa que me assemelhou a pequena menina com sua lata de sonhos foi uma lágrima flutuante nos olhos que me acompanhou durante toda a manhã.

De repente percebi que preciso reaprender a sonhar.

Talvez se eu encontrar uma lata decorada que me encante, ou pensar em algo que eu me permita desejar...

De qualquer maneira, além do relógio e além das desilusões, deve existir um sonho que me aguarde em algum lugar nos meus dias! Espero que ao conseguir sonhar novamente, também possa um dia saborear o pudim com o gosto dos sonhos realizados!

Moral da História: Leite com chocolate, amor de mãe, sonhos e um doce são coisas que alimentam o corpo e a alma. Até cabem em uma lata, mas o melhor lugar para guardar os sonhos e esperança é dentro de cada um de nós. Nunca deixe de sonhar!


2 comentários:

  1. Eu li em algum lugar que os sonhos são como sementes... e as sementes só germinam quando morrem...
    As vezes os sonhos que vc não encontrou dentro de si, nem dentro da lata, morreram no jardim... não fique triste... eles nascerão como flores e perfumarão os teus dias... Basta esperar um pouquinho... as coisas boas costumam levar um tempo meio demorado pra acontecer... :)
    Amo vc, mãe... :)

    ResponderExcluir
  2. Oya Buir.
    Ori'vor'entye.
    Eu precisava ler isso.
    Te amo.
    Ad'ika

    ResponderExcluir