O cansaço do dia venceu o chamado dos livros que esperavam pacientemente que eu dedicasse um tempo a eles. Busquei o travesseiro amigo e adormeci sem dar tempo para o arrependimento.
E tive a impressão de acordar mais rápido ainda, quando abri os olhos e me sentei na cama. Uma noite todinha já havia se passado? O que houve? Algum ajudante do Senhor do Tempo sentou-se no botão de acelerar? Eu ainda sentia muito sono e a sensação de poucos minutos apenas negava-me a impressão de uma noite bem dormida.
Um riso de criança juntou-se a minha sensação de estranheza. Olhei ao lado e num pulo fiquei de pé, encarando aquela pequena criança.
- Oi. Quer brincar comigo?
Esfreguei os olhos com tanta força que quase faço a menina dos meus olhos pular para fora para brincar com aquela menina vestida como se fosse um mostruário de uma loja de laços e babados.
-Quem é você? – perguntei, temendo que ao responder ela se transformasse em algum monstro (esse é o problema de quem lê muito, sempre ficamos esperando algo fora do comum e quando nada acontece, ficamos desapontados com a vida).
- Eu me chamo Conchita.
Deve ser sonho. Impossível estar acordada diante de uma criança desconhecida vestida como uma boneca antiga, com grandes olhos azuis, sorriso encantador e voz doce que se chama Conchita.
- Isso é um sonho? – perguntei, mais para mim mesma, do que para a pequena menina.
- Se fosse um sonho, você acha que eu estaria nele?
- Bom, eu nunca pensei que sonharia com uma boneca falante, mas desde quando sonhos são lógicos.
- São mais lógicos do que a maioria pensa. Muitas pessoas entenderiam melhor a vida e a si mesmos se parassem para analisar seus sonhos. Neles são explícitos alguns dos desejos mais secretos da pessoa.
OK, deve ser um pesadelo. Essa menininha vai virar uma bruxa ou um ser de outro planeta! Com tantos galãs a povoar minha imaginação e eu vou sonhar com uma criança que discute lógica?
- Vamos embarcar nessa, Conchita. – respondi, sentando-me ao lado dela para uma provável discussão metafísica englobando as razões da vida.
- De verdade eu me chamo Consciência. É que Conchita é mais legal.
- Ah, não. Conversar com uma ET tudo bem, mas conversar com a Consciência? De madrugada? Por quê?
Antes que eu pudesse soltar algum impropério do qual me arrependesse, a Conchita Consciência pegou minha mão e saiu em direção a rua. Percebi que todas as portas estavam abertas e que a rua que encontramos do lado de fora da minha casa era bem diferente da real.
- Quem disse que aquela é a real? Na verdade, quem disse que a vida que você leva diariamente é real?
- O quê? Você lê pensamentos Conchita?
- Eu estou em seus pensamentos, esqueceu?
Com um meio sorriso, preferi observar em volta ao invés de responder. A rua lembrava infância, muitas árvores, casinhas simples, pessoas conversando nos portões e muitas escadas no meio da rua.
Escadas? Eu vi escadas? Sim, muitas delas. De todos os tipos: escadas suntuosas de madeira, escadas pequenas, médias, imensas. Escadas de metal, escadas escoradas em outras escadas, até escadas desenhadas no chão.
- Aqui não se usa carro, moto ou outro tipo de locomoção. Só escadas.
E depois de me surpreender com essa observação, Conchita correu de encontro a outras crianças que jogavam amarelinha na calçada. Deixei-a brincar, não me pareceu inteligente tirar a consciência de seu momento de diversão.
Caminhei entre as escadas e vi que cada uma trazia uma placa com um nome. Obviamente, comecei a procurar o meu nome, afinal qual o motivo para esse sonho doido se não for para receber alguma lição de moral?
- Eu não pretendo dar lição nenhuma.
Sim, eu pulei de susto. Imagino que meu corpo, lá na cama, deve ter estremecido!
- Conchita! Como fica a sua consciência se me matar de susto durante o sono?
- E consciência tem consciência?
Eu sorri timidamente, para depois cair na gargalhada. Todo o stress do sono doido, da vida real, dos dias corridos, esvaneceram-se.
- Finalmente! Pensei que ia ficar carrancuda até o fim do sonho.
Conchita pego minha mão e puxou-me delicadamente em direção a um parque. Eu ainda estava rindo quando chegamos, nem tanto pela brincadeira sobre Conchita ter consciência, mas por alívio mesmo, fazia tanto tempo que não relaxava, que esse momento estranho mas descontraído estava sendo uma verdadeira válvula de escape para mim.
Apontando para um escada de mármore, toda ornamentada com detalhes gregos e que se perdia no meio das nuvens não permitindo que eu enxergasse seu fim, minha amiguinha de sonho explicou:
- Essa é uma das escadas mais antigas que conheço. Ela muda de cor, formato e motivos de decoração de tempos em tempos, mas na maior parte das vezes é inspirada pela cultura grega. Mas ela existe há mais tempo que a Grécia ou que qualquer país que se conheça.
Admirando a escada, perguntei a quem pertencia.
- Ela pertence à Humanidade. Mas a própria Humanidade não sabe até onde ela vai, porque ainda falta muitos degraus para subir, alguns nem foram construídos ainda. E aí é que está a razão deste sonho.
- Eu sabia que tinha alguma coisa a mais. Qual a lição?
- Já disse, não estou aqui para lhe ensinar algo. Só para recordar de um conceito até bem simples.
Conchita fez uma pausa que achei bem dramática e nesse momento esforcei-me muito para não cutucar a Consciência, para que ela falasse logo qual era o tal conceito. Eu cruzei os braços, olhei m volta, observei outras tantas escadas, outras tantas crianças, outros tantos parques em volta de onde estávamos. Descruzei os braços e fiquei dando ligeiras palmadinhas na minhas pernas, tentando até atrair a atenção de Conchita, que olhava ainda para o alto, para a monumental escada, como a imaginar até onde ela chegaria por entre as nuvens.
Alguns longos e cansativos minutos se passaram. Quando estava prestes a começar assobiar alguma música, bater palmas ou dar uma pequena sacudidela na Consciência, a menina continuou a conversa.
- A cada degrau que sobe, o dono da escada fica mais perto do que almeja, aprendendo na subida de acordo com o que pode enxergar da paisagem a sua volta, que muda obviamente de degrau para degrau.
- É isso?
Sorrindo, Conchita continuou.
- A vida se divide entre o que sabíamos no degrau abaixo e o que estamos aprendendo no degrau acima.
- Certo. – achei melhor não interromper com comentários mais longos.
Conchita sorriu ao ver lindas flores diante de nós e começou a colher algumas, formando um singelo buquê surpreendentemente colorido.
- O que você deve lembrar é que existe um momento em que a pessoa fica com um pé no degrau de baixo e o outro no degrau de cima. Esse é o momento em que ela está mais frágil em sua evolução e ainda não tem certeza se aceita o aprendizado que irá receber. É nessa hora que o ser humano costuma cometer seus erros mais estúpidos e os mais inocentes.
- Um momento de escolhas! – eu estava mais pensando do que comentando o que Conchita falava, mas mesmo assim falei em voz alta, sem nem perceber.
- Sim, “o” momento da escolha. Escolher evoluir ou não, escolher pedir perdão, escolher perdoar, escolher seguir em frente, escolher ficar no passado, escolher continuar a amar, escolher um novo amor, escolher ser feliz, escolher a tristeza, escolher o novo degrau, preferir o antigo... e algumas vezes, descer alguns degraus impulsivamente, porque ainda não se sente bem nos lugares mais “altos” de sua evolução.
Comecei a lembrar da minha própria vida, reconhecendo alguns desses momentos e escolhas que eu mesma vivi. E jogando esse conceito nas lembranças de atitudes de outras pessoas, pude também reconhecê-las nesse momento frágil.
Não percebi que tinha fechado os olhos enquanto pensava em tudo isso e ao me dar conta disso, abri rapidamente e deparei-me com uma escada de madeira, sólida, com aroma de lustra móveis, que reconheci ser a escada de uma das casas que vivi em minha infância.
Conchita estava sentada no quinto degrau e sorria.
- Essa é minha escada?
Ela balançou a cabeça afirmativamente e eu sorri junto com ela. Num impulso, subi correndo os degraus e a cada um deles vivia um momento diferente da minha vida, até chegar ao último, de onde podia ver toda a extensão do lugar onde estávamos.
Sentei-me e Conchita que tinha subido atrás de mim, sentou-se também. Olhando para cima dava para ver o vulto de um próximo degrau que ainda não estava pronto.
- É legal estar aqui.
- Sempre é bom estarmos aonde conquistamos. Basta aprender a reconhecer a preciosidade da paisagem que podemos ver.
- Difícil essa, hein Conchita? Aceitar o momento, o que nos cerca, o que já vivemos e aguardar o que há de vir.
- Bom, a vida se torna mais fácil a cada degrau, mas isso também faz parte da evolução.
- Vou procurar lembrar melhor de tudo isso, pequena menina. E lembrar de você, não sabia que a Consciência podia ser tão divertida e leve.
- Na verdade, não vai lembrar muito bem não. Só vai ter a sensação dessa lembrança. Sabe como é, existem regras a serem respeitadas e uma delas é que a Consciência só pode alertar, não decidir por ninguém.
E antes que eu pudesse responder, ela me estendeu o buque de flores, com um dos mais belos sorrisos que já vi estampados em seu singelo rosto, que tremeu diante de mim quando uma sirene alta tocou...
- Caramba, eu dormi sentada? – perguntei em voz alta, ao acordar em meu quarto, sentada na cama com o despertador com seu agoniante costume de me avisar que o descanso acabara!
Algumas lembranças confusas, em uma mistura de flores, vento, colunas gregas e risos de crianças preencheu meus primeiros minutos acordada naquela manhã rotineira.
Espreguicei-me e segui o ritual de todas as manhãs.
Algum tempo depois, cheguei no prédio em que trabalho e fui aguardar o elevador. Mas por alguma razão, resolvi subir as escadas.
- Ei, não vai subir? – perguntou a ascensorista.
- Não, hoje eu vou pelas escadas. É mais divertido!
- Você é quem sabe! – respondeu a moça, fechando as portas do elevador.
- Mais divertido? Que idéia essa minha!– pensei com meus botões, mas segui em frente, aproveitando o exercício para lembrar de algumas coisas que andavam esquecidas em minha mente....
Moral da História: - Escute a Conchita de vez em quando e suba a escada da evolução com mais prazer, sempre é mais fácil aprender quando aceitamos a lição!

Adorei o tesxto, Lisa! Mas ficou uma dúvida: isso foi um sonho mesmo ou é um conto? Beijo
ResponderExcluirÉ um conto, mas baseado na vida real :)
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